Autor: Ben Goldacre*
Tradução: Alê GM
Fonte: The Lancet, 17/11/2007
Cinco grandes meta-análises de testes de homeopatia foram feitas. Todas tiveram o mesmo resultado: depois de excluir testes metodologicamente inadequados e tratar vieses de publicação, a homeopatia não produziu nenhum benefício estatisticamente significante além do placebo.[1-5] E ainda assim a homeopatia pode ser clinicamente útil.
Durante a epidemia de cólera no século XIX, as taxas de mortalidade no Hospital Homeopático de Londres eram três vezes menores do que aquelas no Hospital de Middlesex.[6] A razão do sucesso da homeopatia nessa epidemia é ainda mais interessante do que o efeito placebo. Na época, ninguém podia tratar a cólera, e enquanto tratamentos médicos como a sangria eram ativamente prejudiciais, os tratamentos dos homeopatas eram ao menos inertes.
Passar por um teatro de tratamento médico e tentar todos os remédios dos manuais somente causará efeitos colaterais. Uma pílula inerte nessas circunstâncias parece uma opção razoável. Entretanto, assim como a homeopatia possui benefícios inesperados, ela também possui efeitos colaterais inesperados. O próprio ato de receitar uma pílula carrega seus próprios riscos: medicalização, incentivo de comportamentos contraproducentes de enfermidades e promoção da ideia de que uma pílula é uma resposta apropriada a um problema social, ou a uma modesta infecção viral.
De maneira similar, quando um profissional de saúde de qualquer descrição receita uma pílula que ele sabe não ser mais efetiva do que placebo – sem revelar esse fato a seu paciente – ele desconsidera assim tanto o consentimento informado quanto a autonomia do paciente. Alguns podem argumentar que esse custo seja aceitável, mas um paternalismo tão antiquado quanto este pode eventualmente debilitar a relação médico-paciente.
Há também danos mais concretos. Um recurso rotineiro do marketing de práticas homeopáticas é denegrir a medicina convencional. Um estudo mostrou que metade de todos os homeopatas que foram abordados aconselharam pacientes contra as vacinas de sarampo, caxumba e rubéola para seus filhos.[7]
Uma investigação de um noticiário de TV descobriu que quase todos os homeopatas que foram abordados recomendaram tratamento homeopático ineficaz para malária, criticaram o tratamento médico e nem mesmo deram simples aconselhamentos sobre prevenção de picadas do mosquito.[8]
Criticar a medicina é uma decisão comercial inteligente para homeopatas, pois dados de pesquisas mostram que uma experiência decepcionante com medicina mainstream é uma das poucas características que se correlacionam regularmente com a decisão de usar terapias alternativas. Mas pode não ser uma escolha responsável. Homeopatas podem prejudicar campanhas de saúde pública; deixar seus pacientes expostos a doenças fatais; e, no extremo, errar ou desconsiderar diagnósticos fatais. Também houve casos de pacientes que morreram depois de homeopatas medicamente treinados aconselharem-nos a parar tratamentos médicos para condições sérias de saúde.[9, 10]
Todos esses problemas foram exacerbados pela ânsia da sociedade para endossar alegações de cura de homeopatas, e pela falta de uma cultura de autoavaliação em medicina alternativa. O viés de publicação em periódicos de terapia alternativa é alto: em 2000, apenas 5% dos estudos publicados em periódicos de saúde complementar ou alternativa foram negativos.[11] Até onde sei, os problemas éticos da autonomia e do placebo nunca foram discutidos. Homeopatas rotineiramente respondem a meta-análises negativas selecionando a dedo estudos positivos [cujas limitações metodológicas foram demonstradas pelas mesmas meta-análises]. Um estudo de observação,[12] que é pouco mais do que uma pesquisa de satisfação de consumidores, foi divulgado[13] como se tivesse o trunfo de uma série de ensaios clínicos randomizados.
Homeopatas podem interpretar mal evidências científicas livremente para um público insuspeito e cientificamente analfabeto, mas ao fazê-lo eles prejudicam o entendimento público do que significa ter um fundamento empírico para um tratamento.
Essa abordagem parece particularmente escandalosa quando acadêmicos trabalham mais do que nunca para engajar o grande público no genuíno entendimento da pesquisa,[14] e quando a maioria dos bons médicos tentam educar e envolver seus pacientes na seleção de opções de tratamento.
Toda crítica que fiz poderia ser conduzida com discussão clara e aberta dos problemas. Mas homeopatas se isolaram fora da medicina acadêmica, e a crítica tem sido frequentemente enfrentada com esquivas ao invés de argumentos. A Sociedade de Homeopatas (na Europa) até ameaçou processar blogueiros,[15] e os cursos universitários de medicina alternativa que eu e outros abordamos têm se recusado a fornecer informações básicas, como o que eles ensinam e como.[16] É difícil pensar em algo menos saudável.
Banir a homeopatia seria uma reação exagerada, já que placebos podem ter um papel clínico. Entretanto, se o efeito placebo é melhor cultivado por homeopatas permanecerá questionável até que esses problemas e efeitos colaterais éticos tenham sido abordados.
* Ben Goldacre é médico e também empregado pela mídia britânica como comentarista sobre pseudociências e sociologia da medicina. Mantém a coluna “Bad Science” no jornal The Guardian.
medicine trials. Brussels, Belgium: Homoeopathic Medicine Research Group. Report to the European Commission. 1996: 195210.

