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The Lancet: Benefícios e riscos da homeopatia [#ten23]

Autor: Ben Goldacre*
Tradução: Alê GM
Fonte: The Lancet, 17/11/2007

Ben Goldacre. Foto: Gaius Cornelius / Wikimedia Commons

Cinco grandes meta-análises de testes de homeopatia foram feitas. Todas tiveram o mesmo resultado: depois de excluir testes metodologicamente inadequados e tratar vieses de publicação, a homeopatia não produziu nenhum benefício estatisticamente significante além do placebo.[1-5] E ainda assim a homeopatia pode ser clinicamente útil.

Durante a epidemia de cólera no século XIX, as taxas de mortalidade no Hospital Homeopático de Londres eram três vezes menores do que aquelas no Hospital de Middlesex.[6] A razão do sucesso da homeopatia nessa epidemia é ainda mais interessante do que o efeito placebo. Na época, ninguém podia tratar a cólera, e enquanto tratamentos médicos como a sangria eram ativamente prejudiciais, os tratamentos dos homeopatas eram ao menos inertes.

De maneira similar, a medicina moderna pode oferecer pouco para condições como muitos tipos de dores nas costas, estresse no trabalho, fadiga sem explicação médica e a maior parte dos resfriados comuns.

Passar por um teatro de tratamento médico e tentar todos os remédios dos manuais somente causará efeitos colaterais. Uma pílula inerte nessas circunstâncias parece uma opção razoável. Entretanto, assim como a homeopatia possui benefícios inesperados, ela também possui efeitos colaterais inesperados. O próprio ato de receitar uma pílula carrega seus próprios riscos: medicalização, incentivo de comportamentos contraproducentes de enfermidades e promoção da ideia de que uma pílula é uma resposta apropriada a um problema social, ou a uma modesta infecção viral.

De maneira similar, quando um profissional de saúde de qualquer descrição receita uma pílula que ele sabe não ser mais efetiva do que placebo – sem revelar esse fato a seu paciente – ele desconsidera assim tanto o consentimento informado quanto a autonomia do paciente. Alguns podem argumentar que esse custo seja aceitável, mas um paternalismo tão antiquado quanto este pode eventualmente debilitar a relação médico-paciente.

Há também danos mais concretos. Um recurso rotineiro do marketing de práticas homeopáticas é denegrir a medicina convencional. Um estudo mostrou que metade de todos os homeopatas que foram abordados aconselharam pacientes contra as vacinas de sarampo, caxumba e rubéola para seus filhos.[7]

Uma investigação de um noticiário de TV descobriu que quase todos os homeopatas que foram abordados recomendaram tratamento homeopático ineficaz para malária, criticaram o tratamento médico e nem mesmo deram simples aconselhamentos sobre prevenção de picadas do mosquito.[8]

Criticar a medicina é uma decisão comercial inteligente para homeopatas, pois dados de pesquisas mostram que uma experiência decepcionante com medicina mainstream é uma das poucas características que se correlacionam regularmente com a decisão de usar terapias alternativas. Mas pode não ser uma escolha responsável. Homeopatas podem prejudicar campanhas de saúde pública; deixar seus pacientes expostos a doenças fatais; e, no extremo, errar ou desconsiderar diagnósticos fatais. Também houve casos de pacientes que morreram depois de homeopatas medicamente treinados aconselharem-nos a parar tratamentos médicos para condições sérias de saúde.[9, 10]

Todos esses problemas foram exacerbados pela ânsia da sociedade para endossar alegações de cura de homeopatas, e pela falta de uma cultura de autoavaliação em medicina alternativa. O viés de publicação em periódicos de terapia alternativa é alto: em 2000, apenas 5% dos estudos publicados em periódicos de saúde complementar ou alternativa foram negativos.[11] Até onde sei, os problemas éticos da autonomia e do placebo nunca foram discutidos. Homeopatas rotineiramente respondem a meta-análises negativas selecionando a dedo estudos positivos [cujas limitações metodológicas foram demonstradas pelas mesmas meta-análises]. Um estudo de observação,[12] que é pouco mais do que uma pesquisa de satisfação de consumidores, foi divulgado[13] como se tivesse o trunfo de uma série de ensaios clínicos randomizados.

Homeopatas podem interpretar mal evidências científicas livremente para um público insuspeito e cientificamente analfabeto, mas ao fazê-lo eles prejudicam o entendimento público do que significa ter um fundamento empírico para um tratamento.

Essa abordagem parece particularmente escandalosa quando acadêmicos trabalham mais do que nunca para engajar o grande público no genuíno entendimento da pesquisa,[14] e quando a maioria dos bons médicos tentam educar e envolver seus pacientes na seleção de opções de tratamento.

Toda crítica que fiz poderia ser conduzida com discussão clara e aberta dos problemas. Mas homeopatas se  isolaram fora da medicina acadêmica, e a crítica tem sido frequentemente enfrentada com esquivas ao invés de argumentos. A Sociedade de Homeopatas (na Europa) até ameaçou processar blogueiros,[15] e os cursos universitários de medicina alternativa que eu e outros abordamos têm se recusado a fornecer informações básicas, como o que eles ensinam e como.[16] É difícil pensar em algo menos saudável.

Banir a homeopatia seria uma reação exagerada, já que placebos podem ter um papel clínico. Entretanto, se o efeito placebo é melhor cultivado por homeopatas permanecerá questionável até que esses problemas e efeitos colaterais éticos tenham sido abordados.


* Ben Goldacre é médico e também empregado pela mídia britânica como comentarista sobre pseudociências e sociologia da medicina. Mantém a coluna “Bad Science” no jornal The Guardian.

Referências
1 – Kleijnen J, Knipschild P, ter Riet G. Clinical trials of homoeopathy. BMJ 1991; 302: 316–23.
2 – Boissel JP, Cucherat M, Haugh M, Gauthier E. Critical literature review on the eff ectiveness of homoeopathy: overview of data from homoeopathic
medicine trials. Brussels, Belgium: Homoeopathic Medicine Research Group. Report to the European Commission. 1996: 195–210.
3 – Linde K, Melchart D. Randomized controlled trials of individualized homeopathy: a state-of-the-art review. J Alter Complement Med 1998; 4: 371–88.
4 – Cucherat M, Haugh MC, Gooch M, Boissel JP. Evidence of clinical effi cacy of homeopathy: a meta-analysis of clinical trials. Eur J Clin Pharmacol 2000; 56: 27–33.
5 – Shang A, Huwiler-Müntener K, Nartey L, et al. Are the clinical effects of homoeopathy placebo eff ects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. Lancet 2005; 366: 726–32.
6 – Hempel S. The medical detective. London, UK: Granta Books, 2006.
7 – Schmidt K, Ernst E. Aspects of MMR. BMJ 2002; 325: 597.
8 – Jones M. Malaria advice ‘risks lives’. Newsnight, BBC2 July 13, 2006. http://news.bbc.co.uk/1/hi/programmes/newsnight/5178122.stm (accessed Nov 8, 2007).
9 – General Medical Council Fitness To Practise Panel. Dr Marisa Viegas. 2007. http://www.gmc-uk.org/concerns/hearings_and_decisions/ftp/20070628_ftp_panel_viegas.asp (accessed Nov 8, 2007).
10 – Sheldon T. Dutch doctor struck off for alternative care of actor dying of cancer. BMJ 2007; 335: 13.
11 – Schmidt K, Pittler M, Ernst E. Bias in alternative medicine is still rife but is diminishing. BMJ 2001; 323: 1071.
12 – Spence DS, Thompson EA, Barron SJ. Homeopathic treatment for chronic disease: a 6-year, university-hospital outpatient observational study. J Altern Complement Med 2005; 11: 793–98.
13 – Grice E. Keep taking the arsenic. Daily Telegraph Nov 25, 2005. http://www.telegraph.co.uk/health/main.jhtml?view=DETAILS&grid=P8&xml=/health/2005/11/25/hhomeo25.xml (accessed Nov 8, 2007).
14 – Evans I, Thornton H, Chalmers I. Testing treatments: better research for better healthcare. London, UK: British Library, 2006.
15 – Goldacre B. Threats, the homeopathic panacea. Guardian Oct 20, 2007. http://www.guardian.co.uk/science/2007/oct/20/homeopathy (accessed Nov 6, 2007).
16 – Giles J. Degrees in homeopathy slated as unscientific. Nature 2007; 446: 352–53.
Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org