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Como a Ciência lida com superstições – Homeopatia [#ten23]

Autor: Pedro Almeida

Este texto é um trecho de um artigo maior do Radiação de Fundo, onde destaquei a parte em que disserto especificamente sobre a homeopatia e estudos científicos que comprovam sua ineficácia clínica.

Veja o texto completo aqui.


Ainda hoje, existem diversas superstições difundidas pelo mundo. Muitas se propagam por meio de tradição, assim como acontece com o dogma religioso. Invariavelmente estão associadas à crença infundada ou a pseudociências, ou a ambas. Mas na lógica da Ciência de verdade, toda asserção está sujeita a teste rigoroso e controlado. Hipóteses absurdas requererão evidências absurdas.

Se por um lado existem nas mais variadas formulações, há algo que unifica as superstições sob uma única bandeira – as hipóteses ad hoc. Existe sempre uma força sobrenatural invisível, muitas vezes incompreensível ou indetectável experimentalmente, que é a alegada causa dos efeitos observados: destino, espíritos, influência astral, entidades etéreas, energias especiais, alternativas e modelos paracientíficos, etc. O problema lógico de considerar estas hipóteses reside em não haver como diferenciar o inexistente do indetectável.

(…)

Estudo de caso: Homeopatia – a superstição de que soluções de uma substância originalmente danosa, ultradiluída ao ponto de não restar sequer uma molécula, podem ter algum efeito terapêutico.

Um artigo publicado por um cientista de Exeter, no Reino Unido [1], sobre a eficácia de soluções homeopáticas, é basicamente uma compilação de revisões sistemáticas de diversos testes clínicos e meta-análises já publicados sobre homeopatia. Uma revisão sistemática consiste em formular uma questão concisa sobre um assunto, que deve ser respondida através da análise sistemática e organizada de pesquisas relevantes já publicadas, uso de métodos estatísticos, critérios de exclusão ou inclusão de resultados e quantificação da qualidade dos testes.

Uma revisão dos estudos sistemáticos sobre eficácia homeopática é interessante por compilar diversos testes rigorosos de forma condensada e ponderar as evidências para tirar conclusões estatisticamente relevantes e representativas sobre o assunto. Neste caso, a questão levantada foi se os efeitos clínicos observados da homeopatia justificam sua indicação na prática clínica.

O autor aponta que os proponentes da homeopatia, uma prática que claramente viola a noção físico-química de concentração, defendem que uma terapia não deveria ser rejeitada por simplesmente não se saber como funciona. Por isso mesmo, justifica-se fazer testes clínicos controlados que apontem para a eficácia ou não do tratamento, independente do mecanismo de funcionamento.

O método utilizado pelo autor foi de buscar publicações através dos bancos de dados Medline, Embase, Amed e CISCOM, com palavras-chave que levariam a testes clínicos, meta-análises e revisões sobre a homeopatia. Adicionalmente, outros cinco especialistas no assunto foram consultados. O autor teve o cuidado de incluir somente revisões e meta-análises de testes clínicos que usaram cobaias humanas.

Os critérios de inclusão e exclusão levaram a 17 artigos relevantes. Seis destes artigos eram revisões de uma meta-análise famosa na área, um estudo por Linde et al., de 1997 [2], que sugeria um resultado levemente positivo, acima da hipótese de placebo. Destas seis revisões do estudo, três sugeriam que o efeito global sugerido para a homeopatia era insignificante, enquanto uma outra revisão sugeria que a conclusão da meta-análise original de Linde et al. era tendenciosa. Mais notavelmente, uma outra revisão do estudo, feita pelos mesmos autores da meta-análise em questão, concluía que sua própria re-análise “enfraqueceu as descobertas de sua meta-análise original”. Coletivamente, as revisões implicavam que as conclusões iniciais não eram suportadas por uma avaliação crítica dos dados a posteriori.

Tendo comentado os 6 artigos que envolviam este estudo em específico, o autor continua comentando as outras 11 revisões sistemáticas independentes. Juntas, estas análises não fornecem evidência concreta a favor da homeopatia. Algumas flutuações em comparação com os placebos são observadas, porém até mesmo a famosa arnica demonstra ter resultados estatisticamente idênticos ao do medicamento-controle (placebo).

Muitas das evidências tornaram resultados ora inconclusivos, ora negativos. Um destes estudos foi um teste clínico multi-centros (realizado em diferentes pacientes de diferentes unidades de saúde) que tentava replicar diversos estudos anteriores, tendo falhado em demonstrar um resultado positivo ao tratamento. Outro estudo indicava efeitos levemente positivos, porém os próprios autores apontavam que o resultado global era fraco e insuficiente para recomendar a terapia homeopática.

Conclusão parcial: A revisão de todos os estudos, quando ponderada, sugere que, na prática, a medicação homeopática não produz nenhum efeito terapêutico devido às soluções ultradiluídas em si. O autor ainda comenta que “coletivamente, estes dados não fornecem evidência concreta de que remédios homeopáticos são clinicamente diferentes de placebos” e que “tanto a evidência clínica quanto a pesquisa básica subjacente à homeopatia permanecem pouco convincentes. […] Até que resultados mais convincentes estejam disponíveis, a homeopatia não pode ser vista como uma forma de terapia baseada em evidências”.

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Referências:

[2] – LINDE, K., CLAUSIUS, N., RAMIREZ, G., MELCHART, D., EITEL, F., HEDGES, L., & JONAS, W. (1997). Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? A meta-analysis of placebo-controlled trials The Lancet, 350 (9081), 834-843 DOI: 10.1016/S0140-6736(97)02293-9

[1] – Ernst, E. (2002). A systematic review of systematic reviews of homeopathy British Journal of Clinical Pharmacology, 54 (6), 577-582 DOI: 10.1046/j.1365-2125.2002.01699.x

Pedro Almeida
Pedro S. Almeida