Bule Voador

Hoje é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. E deste blog ateu receber cristãos.

Do Conselho de Mídia da LiHS

Em 27 de dezembro de 2007 foi incluído no Calendário Cívico do nosso país o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado anualmente no dia 21 de janeiro.

Milhares de pessoas em todo o Brasil marcharão hoje por seu direito de professar suas crenças religiosas, principalmente as minoritárias religiões afro. O motivo para estas valorizarem ainda mais a data é contado pelo Diário do Nordeste:

A data é uma homenagem à memória de Mãe Gilda, da Bahia. Ela teve sua fotografia publicada em um jornal evangélico de grande circulação, em que foi associada ao charlatanismo. Fragilizada por esse atentado moral, a mãe de santo faleceu de infarto em 21 de janeiro de 2000.

Não é raro o preconceito contra os ditos “macumbeiros”, associando-os à imoralidade ou a forças sobrenaturais malignas. Mãe Gilda foi vítima desta discriminação comum, manifestada por ignorantes – pois não existe megafone mais potente que a ignorância para alardear a desinformação intolerante.

Dez anos depois da morte de Mãe Gilda, uma nova vítima foi feita pela intolerância. Felizmente não morreu. Mas não é uma pessoa, são muitas. São milhões. Aconteceu precisamente no dia 27 de julho de 2010, quando um programa de TV com milhões de espectadores atacou outra minoria. Os ateus são os novos macumbeiros.

Mas nem sempre somos vítimas. Há alguns ateus exagerando na dose da crítica às ideias e adentrando o território pantanoso do ataque à pessoa, como fez o jornal evangélico citado acima. Se as crenças de Mãe Gilda eram falsas, mostrar isso por argumento não é fazer um ataque à sua pessoa acusando-a de ser charlatã – alguém que engana os outros de forma dolosa. Discordar de qualquer outro grupo também não é igual a atacar as pessoas que a ele pertencem, associando-as a estereótipos injustos.

A melhor arma contra o estereótipo é a aproximação. Por isso, na intenção de promover a tolerância, este blog ateu da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) quer dar o exemplo.

A Diretoria e o Conselho de Mídia da LiHS abraçaram prontamente uma ótima proposta do Eli Vieira e o Bule Voador foi agraciado com um espaço formal para o controverso, somando à sua equipe dois ombudsmans cristãos. Ambos contribuirão com artigos críticos periódicos.

E aos 21 de Janeiro do ano  2011 da Era Cristã para eles, e da Era Comum para nós, a LiHS tem o orgulho de apresentar André Tadeu Oliveira e Alex Altorfer. Nos dois textos abaixo, eles por eles mesmos.

André Tadeu Oliveira

André Tadeu Oliveira

Confesso que em setembro de 2009, quando o Bule surgiu,  meio que fiquei com o pé atrás diante da postura defendida pelo novo endereço virtual. Pensei que seria mais um espaço exclusivamente dedicado ao ataque a todo tipo de crença religiosa. Imaginei que não passasse de mais um site ateísta raivoso e fechado.

O post de hoje, dia em que mundialmente comemoramos o Dia da Tolerância Religiosa, é a prova cabal de que havia me equivocado. Afinal, cá estou (não apenas um cristão, mas teólogo formado e futuro pastor de uma igreja protestante brasileira), iniciando meus dias como ombudsman deste espaço, reconhecidamente de respeito no extenso fórum de debates da internet brasileira. Minha premissa inicial, portanto, estava equivocada. O simples fato de se convidar um teísta praticante como membro da equipe do BULE denota o senso crítico e a tolerância existentes entre os organizadores do site.

Além do mais, coerente com o objetivo primordial da LiHS, Liga Humanista Secular do Brasil, o BULE VOADOR tem se destacado com textos que primam pela luta em prol da liberdade, diversidade e democracia. Como cristão progressista e de esquerda, estes temas me são caros e portanto contam com meu apoio.

Além de teólogo, sou jornalista. Assim, fica fácil explicar para os leigos o real significado da palavra ombudsman. Termo de origem sueca, ombudsman quer dizer algo parecido com representante, isto é, o profissional que representa aqueles que acompanham um determinado meio de comunicação. Dentre suas várias funções, o ombudsman deve apresentar ao órgão de comunicação ao qual está ligado as queixas e comentários de seus leitores. Também deve, por si mesmo, exercer seu senso crítico diante de determinadas posturas do meio de comunicação a que esteja vinculado.

Diante destes fatos uma questão fica aberta: como um cristão assumido pode exercer a função de ombudsman de um site de cunho humanista secular, cuja parcela significativa dos leitores é composta por ateus e agnósticos?

Para responder tal indagação um breve resumo de minha trajetória religiosa é salutar. Nascido dentro do cristianismo protestante, nunca reprimi minha predileção por assuntos religiosos. Não fui o típico adolescente cristão que comparecia à igreja por causa da pressão familiar; eu gostava daquilo. Não demorou muito para que me tornasse um adolescente fundamentalista. Não era o tipo de fundamentalista raivoso;  ouvia música secular, ficava com “garotas do mundo” e praticava outras coisas veementemente abolidas da vida de um típico fanático evangélico brasileiro. Não obstante, meu fundamentalismo era talvez mais nocivo, pois se concentrava em assuntos mais profundos, éticos e filosóficos. Era calorosamente anticatólico e criacionista de carteirinha. Ateísmo? Para mim significava a perversão de toda sociedade.

Após um certo tempo abandonei a fé cristã, tornando-me agnóstico. Permaneci como cético durante quatro anos e em 2002 retornei ao cristianismo. Retornei, no entanto, de uma forma diferente, crítica e TOLERANTE. Liguei-me aos setores ecumênicos do protestantismo, onde católicos são vistos como irmãos na fé cristã e os seguidores de outras crenças, fora do espectro do cristianismo, como integrantes do rico amálgama religioso existente no mundo.

No entanto, as minhas experiências mais marcantes se deram com os anteriormente temidos e desprezados ateus. Dentro dos movimentos sociais com os quais estabeleci contato por meio de minha atuação em órgãos sociais vinculados a diferentes grupos cristãos, tive o privilégio de conhecer vários companheiros assumidamente ateus. Fiquei impressionado com a disposição desses colegas no serviço ao próximo. Participavam de importantes lutas sociais com a mesma dedicação que meus colegas cristãos progressistas. Se comparados com meus antigos comparsas fundamentalistas, ganhavam de goleada!

Dentre várias atividades, lembro-me com carinho especial de uma realizada em dezembro de 2005, quando uma determinada ONG onde militava participou de uma ação em prol do Movimento dos Sem-Teto em São Paulo. Lá estávamos: Eu, presbiteriano independente, uma colega católica e um companheiro metodista. Éramos os cristãos da equipe. De outro lado, tínhamos a companhia de dois ateus e de uma garota agnóstica. No momento em que o Batalhão de Choque da Polícia Militar se aproximava para desalojar aqueles moradores, nos unimos todos, demos as mãos e formamos uma corrente pela justiça. Naquele momento, não existiam cristãos ou ateus, mas simplesmente seres humanos unidos por um ideal em comum.

Essa é a mensagem que deve pautar não apenas este dia mundial da tolerância religiosa, mas todos os momentos de nossa vida. E essa é a política oficial do BULE VOADOR. Tolerância, meus caros, tolerância!

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Alex Altorfer

Alex Altorfer

É com alegria que hoje, no dia da tolerância religiosa, inicio a atividade de ombudsman do Bule Voador, a convite de meu caro amigo Eli Vieira. Aproveito a oportunidade para compartilhar um pouco a meu respeito.

Por que sou cristão? A resposta não é simples. Primeiramente, sou cristão porque fui criado em um lar cristão. Sou culturalmente produto do meio onde cresci; se eu fosse saudita em vez de brasileiro, provavelmente seria muçulmano. Mas isso não é tudo, não sou um cristão meramente nominal; sou um cristão convicto de minha fé, e a pratico todos os dias. Há outras razões pelas quais aprecio e vivo minha fé. Percebo a Realidade de Deus a todo momento e em todas as coisas, e isso me motiva a cultivar minha experiência do Sagrado em minha tradição religiosa. Priorizo a ética de Jesus, resumida em seus dois maiores mandamentos (Mateus 22:37-40), assim como na regra áurea, que Jesus compartilha com o Buda, Confúcio, e Lao-Tsé. Estes são os ideais pelos quais norteio minha vida e minhas interações com outros seres humanos. Além disso, desfruto da estrutura social, do aconchego, das amizades e da inspiração proporcionados pela comunidade cristã a que pertenço. São motivos persuasivos, que me compelem a seguir o caminho de Jesus Cristo.

Minha trajetória cristã é longa e tortuosa. Fui criado no fundamentalismo batista e cresci com uma visão simplista do mundo. Tudo era preto e branco e não havia tons de cinza. Eu percebia as pessoas como “salvas” ou “perdidas”, e acreditava que o fim dos tempos e o domínio do mundo pelo Anticristo estivessem próximos, assim como o arrebatamento dos crentes antes de tão trágico fim. A ciência de modo geral, e a teoria da evolução em particular, seriam mentiras usadas pelo diabo para iludir a humanidade. Fui ensinado que a Terra, os seres vivos e todo o cosmo teriam sido criados do nada em suas formas atuais havia meros seis mil anos, e que os dinossauros haviam sido sepultados pelo grande dilúvio de Noé. Como crente fundamentalista, eu tinha um forte amor por Jesus e uma profunda  reverência pela Bíblia como sendo a palavra de Deus. A isso se somavam constantes sentimentos de culpa, de inferioridade, e o medo de ser punido por um Deus que constantemente vigiava todos os meus atos e pensamentos. Qualquer desvio doutrinário poderia acarretar na perdição. Foi ainda nessa fase que me formei em administração de empresas na Liberty University, epicentro da direita religiosa americana, em 1991. Lá estudei a matéria “criacionismo” sob Duane Gish, um dos criacionistas mais conceituados nos anos 80.

A libertação de minha mente foi lenta e dolorosa mas inevitável, pois eu tinha o péssimo hábito de ler, e lia muito.  Eu erradamente supus que, sendo verdadeiras as doutrinas do fundamentalismo bíblico, estas seriam capazes de sobreviver a quaisquer argumentos e nada nem ninguém jamais as refutaria. Ledo engano. Logo desconfiei que a evolução das espécies de fato tivesse ocorrido e confrontei Gish com minhas dúvidas. Gish, que era um sujeito afável e simpático, com franqueza admitiu, embora “off the record”, que o “modelo evolutivo” era melhor embasado que o “modelo criacionista”. Essa foi a primeira carta do castelo de ilusões no qual eu vivia a cair. No entanto, ainda permaneci sendo um evangélico evolucionista por algum tempo, talvez nos moldes de C.S. Lewis ou Francis Collins

A bomba atômica que detonou meu fundamentalismo, de fato, não foi a teoria da evolução, mas a alta-crítica da Bíblia. Descobri em minhas leituras que a própria Bíblia é a mais potente arma contra o literalismo bíblico do movimento evangélico. Na época, isso foi muito doloroso para mim. Foi como se alguém tivesse puxado o tapete de sob meus pés. Descobri que Moisés não escreveu o Pentateuco; que o evangelho de Marcos foi a principal fonte documental de Mateus e Lucas (e que portanto estes últimos não poderiam ter sido testemunhas oculares da vida de Jesus); que o evangelho de João foi escrito na virada do primeiro século; que o apóstolo Paulo só escreveu sete das treze cartas atribuídas a ele, entre outras coisas. Descobri que a forma da alta-crítica explicar a Bíblia faz muito mais sentido do que as acrobacias da apologética sobrenaturalista. Enfim, ficou claro para mim que os escoliastas bíblicos de fato explicam a Bíblia, enquanto os apologistas passam o tempo inventando “harmonizações”.

Depois de um período de confusão mental e emocional, aos poucos fui recuperando minha estabilidade. Foi nessa fase que comecei a procurar por uma igreja teologicamente liberal, ou pelo menos aberta ao liberalismo teológico para frequentar. A tradição batista, embora tenha forte expressão liberal em outros países, no Brasil infelizmente ainda se apóia muito no fundamentalismo, por isso tive que buscar noutro manancial. Após ter visitado várias igrejas, fui calorosamente acolhido na Catedral Anglicana de São Paulo. Logo identifiquei-me com o anglicanismo, tradição de grande elasticidade teológica e notável ecumenismo, no qual finalmente encontrei meu lar espiritual. Isso foi em 1993. Sou cristão liberal, humanista religioso, e fã das ciências naturais há quase vinte anos. Assim se resume, de forma muito abreviada, minha trajetória cristã.

Vocês devem estar aí pensando se eu ainda acredito num Deus antropomórfico, sentado num trono metafísico acima do firmamento, escrevendo os nomes dos salvos no livro da vida e ajustando a temperatura da fornalha na qual jogará os descrentes para que ardam eternamente. Minha resposta: Absolutamente não! Se a única definição possível do termo “Deus” fosse a encontrada nos quadrinhos nefastos de Jack T. Chick, eu seria obrigado a me rotular ateu. No entanto, me inspiro na tradição liberal de gigantes da teologia como Paul Tillich e de filósofos como Alfred North Whitehead.  Deus para mim é a Base do Ser, a Realidade Ulterior através da qual e na qual todas as coisas existem. Os mitos do cristianismo, assim como os das outras grandes religiões, apontam de diversas formas para tal Realidade, mas não devem jamais ser confundidos com a mesma.

Como ombudsman , avaliarei e comentarei artigos do Bule Voador do ponto de vista de um homem religioso, que segue Jesus Cristo. No entanto saliento que, assim como todos do Bule, sou humanista, embora não seja um humanista secular. Compartilho com todos no Bule o amor à ciência e um agudo ceticismo quanto à alegações absurdas, de cunho sobrenaturalista. Não estou aqui, portanto, para defender os criacionismos ou as posições de apologistas teologicamente conservadores como Bill Craig. Estou aqui para de forma civil e respeitosa identificar alegações injustas ou equivocadas contra as religiões de modo geral e o cristianismo em particular, feitas em artigos do Bule. Tais alegações são relativamente comuns em sites céticos, como por exemplo quando os autores dos artigos apelam para generalizações, “jogando fora o bebê com a água do banho”. Espero em Deus poder realizar tal tarefa com eficácia.

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Para falar com os ombudsmans do Bule Voador, mande email para bulevoador@gmail.com com “ombudsman” no campo “assunto”.

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