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Mente e Corpo: O Dualismo à Luz do Espiritismo

Autor: Pedro Almeida

“Possuímos o corpo físico e o espírito, sendo nosso espírito a sede de nossa consciência.”

Com esta premissa, o caminho estava aberto para que a doutrina espírita viesse a ser desenvolvida por Hippolyte Léon Denizard Rivail, vulgo Allan Kardec, durante o século XIX.

O conhecimento científico de facto na época de Kardec era parco. Principalmente na área que conhecemos hoje como neurologia. Só se começou a arranhar o que era a mente humana no inicio do século XX, com a psicanálise e a psicologia analítica de Freud e Jung. Popper veio a chamar a psicanálise mais tarde de pseudociência, mas nada mais consequente na época do que recorrer a explicações pseudocientíficas para algo tão obscuro quanto, por exemplo, a consciência subjetiva.

Se o espírito existe, deveria ser passível de observação. Isto por que é uma interação com o corpo, material, natural. Uma interação destas não poderia passar despercebida, não é algo que pode pertencer exclusivamente ao mundo imaterial, pois interage com o mundo material. Tal existência é passível de evidência e teste. No entanto, até hoje nenhuma entidade do tipo foi detectada.

O problema desta asserção de Kardec é sua residência no típico dualismo mente-corpo: uma consciência é uma entidade independente do corpo; é como se a composição do ser humano fosse o corpo – o material, e a mente – o imaterial. É difícil pensar que uma faculdade tão abstrata quanto a consciência seja fruto de um cérebro, material, tangível e palpável. Mas será mesmo tão difícil? A mente consciente é resultado de complexas interações químicas não aleatórias entre células neuronais: são 100 bilhões de neurônios, cada um fazendo uma média de 1000 conexões sinápticas cada, o que nos diz que o cérebro provavelmente contém algo em torno de 100 trilhões de sinapses. 1461 proteínas estão envolvidas neste maquinário, ocupando 7% dos 20 mil genes codificadores de proteínas do genoma humano (NY Times).

A mente humana (i.e., onde a consciência realmente reside) está fundamentada em bases puramente naturais. Hipóteses tais quais alma e espírito são descartáveis. E isto não é filosofia, isto é ciência: as neurociências explicam hoje as bases da consciência por meio do fisicalismo, de modo satisfatório. Mudanças realmente estruturais no cérebro são associadas ao aprendizado (Nature) e à personalidade (Caso de Phineas Gage).

A consciência é nada mais que uma manifestação da estrutura altamente complexa cerebral, desde a massa cinzenta até a massa branca, ambas sob constante alteração. Nada de imaterial ou espiritual por aqui.

Pedro Almeida
Pedro S. Almeida