Bule Voador

Ser ateu pode ser pesado demais às vezes

Autora:  Rayssa Gon

Quando escrevi aquele primeiro texto aqui para o Bule Voador não tinha  a intenção de fazer uma série, por assim dizer. Depois do retorno positivo, escolhi continuar na mesma linha e as respostas, lá nos comentários, não poderiam ter sido mais encorajadoras. Por isso, tenho um pouco de receio de como será a recepção ao último texto dessa trilogia meio improvisida, pois será abordado um tema nada fácil: a morte. Sim, sem rodeios. Não é incomum crentes (no sentido daqueles que creem em algo superior e consciente, seja lá a forma que tal entidade adote) se questionarem sinceramente sobre como ateus lidam com a morte, com o luto. Perder alguém que amamos nunca é simples e tranquilo, não importa se você acredita em deus ou não. Talvez a pior parte em deixar de acreditar num mundo sobrenatural seja a plena consciência de que nunca mais vamos encontrar as pessoas que já morreram. Não acreditamos em espíritos, nem em paraíso ou reencarnação. Para nós, o fim é o fim. E isso é muito duro, muito forte. E pode parecer  ainda pior, pois não contamos com uma fonte divina de força e consolo.

“Acho, porém, que podemos encarar esse tipo de situação com uma postura cética e sensível ao mesmo tempo.”

Não gostaria de dizer que tenho uma “fórmula para ateus lidarem com o luto”. Isso seria hipocrisia,  ridículo até. Mesmo porque acho que, sinceramente, nunca tive que administrar tamanha dor: apesar de ter enfrentado e sentido a morte de meus avós, não éramos realmente próximos. Mas faço uma idéia do que é passar por isso quando penso na falta que me faria alguém do meu núcleo familiar mais próximo ou do meu círculo de amigos.

“Talvez nós, ateus, sejamos os únicos a realmente ter uma perspectiva de paz absoluta depois da morte.”

Acho, porém, que podemos encarar esse tipo de situação com uma postura cética e sensível ao mesmo tempo. Uma vez que não há qualquer existência-pós morte, a pessoa que você ama não irá para o inferno ou passará a uma próxima vida de sofrimentos terríveis para compensar qualquer tipo de carma ruim. Nada disso. Talvez nós, ateus, sejamos os únicos a realmente ter uma perspectiva de paz absoluta depois da morte. Sem passar a eternidade bajulando deus ou apanhando do diabo. Ou pior: passar meia enternidade (?) na ante-sala do inferno, o purgatório, e passar a outra parte tocando harpa no céu. Também não é preciso depender da ajuda de um ente sobrenatural para passar por uma situação que, apesar de muito triste (trágica, algumas vezes), é natural.

“Num mundo de intolerância e ignorância, “desperdiçar” a única vida que disponho promovendo a fraternidade e o livre-pensar não faz a morte parecer algo tão horrível.”

Pensar sobre a morte de pessoas queridas, me faz refletir, também, sobre minha própria morte. Isso, a primeira vista, pode parecer deprimente e  tenebroso. Porém eu penso na finitude como algo que torna o esforço de nossa vida diária quase heróico. Além de todas as dificuldades cotidianas, somos lembrados, constantemente, de que, um dia, não estaremos mais aqui, e, apesar de tudo isso, continuamos tentando e lutando. Num mundo de intolerância e ignorância, “desperdiçar” a única vida que disponho promovendo a fraternidade e o livre-pensar não faz a morte parecer algo tão horrivel. Muito pelo contrário. É ela que faz dessa luta uma empreitada tão grandiosa e emocionante, por mais que pareça, às vezes para nós mesmo, pequena e circunscrita.

“Onde há raiva, espero que seja uma raiva controlada. Onde há tristeza, meu desejo é que ela não transborde para o desespero, ao contrário, mantenha esperança no futuro”

Para finalizar, quero lembrar as palavras da contracapa de “O Capelão do Diabo”, de Richard Dawkins, que sempre me enchem de otimismo e serenidade: “Onde sou passional, é porque há boas razãoes para a paixão estar presente. Onde há raiva, espero que seja uma raiva controlada. Onde há tristeza, meu desejo é que ela não transborde para o desespero, ao contrário, mantenha esperança no futuro. A ciência é para mim uma fonte contínua de alegria.”

Rayssa Gon