Bule Voador

É possível haver um movimento ateu bem-sucedido?

Autor: Eli Vieira, presidente da LiHS

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Y9DtDrY-nPQ[/youtube]

Estamos condenados ao desentendimento se a única coisa que nos une é a constatação óbvia de que não há motivos para acreditar em Deus ou deuses. Ateísmo é uma conclusão pequena sobre um assunto que só é grande nas pequenas mentes.

Se nos unirmos porque vemos na ciência a melhor forma de obter conhecimento confiável e funcional sobre o mundo, se nos unirmos pela crença nos direitos universais de todos os seres humanos, se nos unirmos pelos ideais dos iluministas e enciclopedistas, se nos unirmos na vontade de tornar este mundo melhor por vias pacíficas e democráticas que abominam a morte, então não somos apenas ateus e agnósticos, somos também humanistas seculares.

E o humanismo secular já é, em alguns aspectos, um movimento bem-sucedido. Já existe uma organização internacional com mais de 50 anos, a IHEU, que é uma das poucas com coragem para denunciar a tentativa dos países da Organização da Conferência Islâmica (OIC), que todos os anos tentam passar uma resolução contra a blasfêmia na ONU. Hoje, 11 de setembro, é um dia especialmente adequado para lembrar que proibir a “blasfêmia” não vai evitar a perpetuação da barbárie no mundo.

Em 1990, a OIC produziu um documento chamado Declaração de Cairo sobre os Direitos Humanos no Islã. O documento alega ser uma complementação à Declaração Universal dos Direitos Humanos, mas discrimina entre direitos de homens e mulheres e permite a execução sob a lei islâmica da Sharia, a mesma lei religiosa que condena mulheres adúlteras à morte pelo apedrejamento.

http://en.wikipedia.org/wiki/Cairo_Declaration_on_Human_Rights_in_Islam

Nas reuniões do Conselho de Direitos Humanos da ONU, os países membros da OIC frequentemente barram os debates e se escondem por trás da liberdade religiosa, como se assassinar adúlteras fosse questão de liberdade religiosa e não de direitos humanos. É por isso que recentemente o Irã negou que o caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani é um caso de direitos humanos.

A LiHS (Liga Humanista Secular do Brasil) se inspira em organizações como a IHEU, como a BHA (British Humanist Association) e o Council for Secular Humanism.

A história da IHEU (International Humanist and Ethical Union) é contada neste livro:
http://www.iheu.org/uploads/iheu%201952-2002%20ebook.pdf

É interessante conferir também este vídeo, de 2008, mostrando os muçulmanos silenciando a IHEU na ONU (em inglês):

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=_4RmlyCR1zM[/youtube]

Dawkins está certo em falar que juntar ateus é como arrebanhar gatos. Mas isso diz respeito a juntar ateus apenas por seu ateísmo.

Existem vários tipos de condutas em ateus. Não deveria surpreender a nenhum ateu que existam ateus agindo mal, porque o ateísmo é vazio em proposições quanto à conduta, justamente por não ser uma posição sobre conduta, mas sobre o que existe no mundo real. Muitos ateus como eu (talvez a maioria) compartilham valores na conduta intelectual – que é orientada pela ciência e pela filosofia – e na conduta moral, orientada pela universalidade de direitos enraizada na reciprocidade, no diálogo, e na empatia.

Estas condutas já receberam vários nomes e um deles é humanismo secular.

Não há promessas mirabolantes: um humanista secular não vai se tornar perfeito. Tanto quanto a ciência, que chega a respostas confiáveis por uma comunidade, o trabalho de elevar o status moral do mundo deve ser um trabalho não individual, mas coletivo, porém, não pode perder de vista que as raízes dos direitos universais são as capacidades e necessidades dos indivíduos. Por isso, culturas não valem mais que indivíduos. Se culturas não respeitam os indivíduos de alguma forma, devem mudar, e de fato mudam quando há um trabalho coletivo pela mudança.

E não me furto a dizer quais são algumas dessas culturas: é a nossa cultura, quando nega o direito civil ao casamento para homossexuais; é a cultura dos índios Suruwahá e outros, que praticam o infanticídio; é a cultura islâmica que obedece à lei da Sharia; é a cultura daquelas corporações que remuneram mal seus funcionários e trabalham pela via do “homem é o lobo do homem”.

Quem conhece o suficiente de ciência, de arte e de cultura sabe que indivíduos perfeitamente sábios simplesmente não existem. Sempre haverá perguntas sem respostas para qualquer Einstein, Jesus, Confúcio, ou Buda. Nenhuma parábola  de Jesus, por exemplo, responde a problemas reais sobre o mundo que nos cerca – respostas bonitas não são respostas práticas.

Ficar fazendo discursos morais bonitos não ajuda ninguém a descobrir a penicilina, nem a investigar em que estágio um embrião humano pode ser considerado um ser que percebe a si mesmo (um indivíduo). Para ter respostas sobre o mundo, tiramos nossas pré-concepções e livros sagrados da frente dos olhos, olhamos em volta e arregaçamos as mangas para chegar a respostas difíceis de serem obtidas.

Obter respostas é tão difícil quanto construir um prédio – não é trabalho para um indivíduo. É trabalho para comunidades orquestradas em torno de uma meta comum.

Se os ateus querem fazer mais do que criticar, polemizar e desconstruir, precisam se unir em torno de uma meta comum.

Eu, um indivíduo, na minha ignorância e na minha esperança, escolhi o humanismo secular e a ciência. E você?

Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org