Bule Voador

Dor, sofrimento e morte em nome de um deus

Fonte: Uma Visão do Mundo

Editor: Eduardo Patriota Gusmão Soares

Crucificação na Sexta-Feira Santa nas Filipinas“Solteira e sem filhos, Sarah destacou que não bebe, abomina drogas e nunca teve relações sexuais. Para continuar virgem, ela coloca o cilício em sua coxa durante duas horas por dia para inibir qualquer desejo sexual.” (Fonte: G1)

Este texto poderia ter passado batido para os leitores acostumados às sandices cometidas por religiosos no afã de se sentirem mais puros e dignos de seus respectivos deuses. Ainda mais esta mulher, posto que ela leva uma vida normal, aparentemente sem maiores proselitismos. Não é o tipo de pessoa que você olha e vê nela uma fanática evangelista. Alguns poderiam ter até certa simpatia por Sarah, muitos podem ter até um orgulho em ver alguém se dedicando tanto assim pela fé. Eu vejo nisso uma doença e um péssimo exemplo.

Nem todos são equilibrados como Sarah. Em 2009, a também inglesa Elizabeth Tevenan, 30, havia tomado analgésicos para aliviar as dores nas costas, e pesquisado na internet informações a respeito de úlcera e câncer de estômago. Ela sentia muitas dores. Criadas sob “rígidos” princípios católicos, Elizabeth jamais falava de sexo com sua mãe. Em conversas com amigas, ela dizia que jamais contaria aos pais se aparecesse grávida de repente. Afinal, castidade antes do casamento é imprescindível para um bom cristão aos olhos dos outros.

Por fim, Elizabeth foi até o banheiro e entrou em trabalho de parto. Silenciosamente, teve o bebê sozinha. Numa desesperada tentativa de acobertar aquele “pecado”, enfiou papel goela abaixo do bebê e o matou sufocado. Devido ao sangramento excessivo, Elizabeth morreu horas depois deixando uma enorme poça de sangue no banheiro. Como vemos, nem todo mundo tem o equilíbrio emocional suficiente para seguir regras fundamentalistas. E se sua irmã, amiga, namorada ou parente aparecer amanhã morta, após matar o próprio bebê? Tudo resultado da vergonha de não ser considerada uma boa cristã? Eis porque devemos combater este tipo de atitude de “louvar” o condenável. Pensamentos que enaltecem a dor ou a morte só existem nas religiões. Você não verá um médico recomendando enfiar agulha sob a unha para curar uma depressão.

Infelizmente muitos vivem numa sociedade conservadora e fundamentalista onde a castidade, a dor, a penitência, a pobreza e o sofrimento são vistos como algo agradável aos olhos de seus deuses. Tão agradável que muitos doam até imóveis para as igrejas, outros usam cilício, e outros se explodem. Desde crianças, pessoas olham com simpatia todo o suplício de Jesus. Felizmente, nem todas decidem se crucificar. Mas basta muito pouco para fazê-lo (afinal, sofrimento é bom).

Nas Filipinas, na Sexta-feira Santa, diversos devotos cristãos se crucificam para pagar promessas. Os 19 “Kristo”, como são chamados, começaram seu calvário levando uma cruz sob um sol escaldante de Cutud, norte de Manila, e foram acompanhados em seu percurso por homens fantasiados de legionários romanos e dezenas de fiéis encapuzados, batizados de “magdaren” pelo flagelo nas costas até sangrar. Chegado ao alto da colina, os mártires são fixados na cruz com cravos atravessando-lhe as palmas das mãos e provocando os naturais gritos de dor. Eles ficam ali por pouco mais de 10 minutos.

É dor, sofrimento em nome de um deus. Ato que deveria ser censurado para não servir de exemplo ou parâmetro. Nunca se sabe quando uma “Elizabeth” aparecerá para matar o próprio filho recém-nascido para estar em dia com sua boa reputação religiosa.

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