Bule Voador

Por que você ainda não se matou?

Autora: Rayssa Gon (*)

É muito comum nós, ateus (e até agnósticos, neste caso), sermos confrontados por pessoas crentes com perguntas que, apesar de aparentemente neutras (para eles), já estão carregadas de preconceitos e idéias, no mínimo, equivocadas. Gostaria de destacar duas delas que me impressionam por sua absoluta falta de sentido e discriminação. O pior é que, muitas vezes as pessoas nem se dão conta do quanto estão sendo preconceituosas!

Logo depois de saberem sobre nossa postura de vida, muitos teístas fazem uma pergunta clássica: se você não acredita em deus, por que ainda não se matou? Sim, já me fizeram essa pergunta algumas vezes e usando exatamente os mesmos termos – na verdade, uma vez colocaram um “meteu uma bala na cabeça” no lugar de “se matou”.

“Aí você dá uma lista das coisas que te mantêm longe da beira do parapeito”

Vou ser muito sincera agora: eu nunca entendi realmente o que essa pergunta quer dizer. Porque raios eu deveria me matar só porque deus não existe? Pode parecer uma pergunta idiota e/ou extrema, mas, infelizmente, é muito recorrente. Ateus ainda são vistos como seres sem esperança, sem projetos futuros, amor pela vida ou por outros seres (animais ou pessoas, atéias ou não) sem qualquer perspectiva… Certo, aí você dá uma lista das coisas que te mantêm longe da beira do parapeito,  quais quer que sejam,  e, momentaneamente, o questionador parece achar concebível uma existência sem deus. Porem, é bem possível que ele passe a um outro extremo e te faça uma pergunta tão esdrúxula e ofensiva quanto a anterior:

 

Se você acha que deus não existe, o que te impede de matar, estuprar e roubar as outras pessoas?

“Se deus a única coisa que te impede de ser um serial killer, então, por favor, continue crente!”

No meu caso, costumam tirar o “estupro” da frase, mas meus amigos ateus a ouvem na versão sem cortes. Antigamente eu costumava ficar realmente ofendida com esse tipo de opinião. Hoje, eu quase sempre parafraseio o blogueiro e ateu Alex Castro: amigo, se deus é a única coisa que te impede de ser um serial killer, então, por favor, continue crente! Os ateus continuam sendo vistos como pessoas amorais, sem empatia, cruéis e manipuladores. Na cabeça de muita gente, o dia-a-dia de um ateu é uma orgia bissexual interminável recheada de álcool e drogas que você roubou do seu traficante depois de matá-lo porque ele não queria mais vender nada para você. Ou porque não queria participar da orgia.

Ora, essa linha de pensamento nos levaria a achar que a maioria dos cristãos vive pregando o amor ao próximo e a tolerância, ou doando seus bens em nome da caridade cristã. E eu não preciso dizer a vocês que grande parte deles não faz exatamente isso.

Posso dizer que este texto foi um texto negativo: se centrou, basicamente, no que não significa, necessariamente, ser ateu ou ter uma postura de vida atéia. Mas, afinal, como os ateus encaram a existência? Como vivem? É claro que não pretendo generalizar e seria até meio prepotente dizer que eu sei “como todos os ateus se comportam diante da vida”, mas não seria interessante dizer o que muitos deles compartilham? Bem, isso já é assunto para uma proxima vez.

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(*) Rayssa “Gon” é blogueira, atéia por opção e necessidade. Estudante de História na USP, mas atualmente lê mais sobre biologia. Não vive sem livros, leite e internet.

Rayssa Gon