Bule Voador

O mundo e o Universo do astrônomo Wladimir Lyra

Editor: Eli Vieira

Wladimir na Muralha da China. O astrônomo faz questão de lembrar: "não, não dá pra ver a muralha do espaço."

Wladimir Lyra é um jovem cientista, de 28 anos, formado em Astronomia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2003. A pouca idade já traz vasta experiência: estágio no Space Telescope em Baltimore, depois pesquisador assistente no Observatório Interamericano de Cerro Tololo em La Serena, Chile, com passagem pelo Observatório de Lisboa e Observatório Austral Europeu, em Garching, na Alemanha.

Doutor em Astrofísica pela Universidade de Uppsala, Suécia, em 2009, pós-doutorado no Instituto Max-Planck de Astronomia em Heidelberg, Alemanha, e fazendo agora outro pós-doutorado no Departamento de Astrofísica do Museu Americano de História Natural, em Nova York. Doze artigos científicos publicados em revistas especializadas desde 2005, sete deles como primeiro autor.

Na semana passada, Wladimir gentilmente concedeu esta entrevista à LiHS / Bule Voador.

LiHS: Por que escolheu esta carreira? Foi alguma influência na infância?

WL: Meu fascínio por Astronomia começou aos cinco anos de idade. Minha irmã estava na terceira serie do primário, e um dia eu dei uma olhada no livro de ciências dela. A primeira pagina tinha um desenho do sistema solar. Eu reconheci a Terra, o Sol e a Lua, mas me peguei curioso sobre as outras bolinhas com nomes estranhos. Acho que fiquei fascinado com a idéia que eram mundos como a Terra, e li todo o capitulo daquele livro. Minha mãe diz que por um ano inteiro eu só falei disso. Meu pai soube do meu pontoazulinteresse, e me trouxe um livro de Astronomia, “Os Planetas”, com fotos dos encontros das Mariner com Mercúrio e Vênus, as imagens da Viking da superfície de Marte, e os encontros das Voyager com Júpiter e Saturno. Eu matava o recreio pra ler aquele livro, levava pra cima e pra baixo. Vendo ele hoje em dia eu me dou conta que o texto era avançado pra seis anos de idade. Começava com uma explicação sobre o sistema Copernicano, e passava pelas Leis de Kepler antes de começar os capítulos sobre cada um dos planetas. Falava do trancamento de maré de Mercúrio, do efeito estufa em Vênus, que Júpiter radiava mais energia que recebia do Sol, sobre os cálculos que levaram à descoberta de Netuno. Eu decididamente não entendi tudo naquela época, mas aquele livro me marcou muito. Na adolescência eu desenvolvi outros interesses. Mas se eu pensei em prestar vestibular pra alguma outra coisa, o livro  Pálido Ponto Azul, de Carl Sagan, me convenceu que realmente Astronomia era minha escolha profissional. Eu lembro de ter visto o livro na livraria, custava 55 reais. Eu economizei dinheiro um mês inteiro pra comprar.

LiHS: Quando se fala em astrônomo a gente lembra logo de Carl Sagan e Neil deGrasse Tyson (seu colega de instituição). Os dois são grandes cientistas ou grandes divulgadores?

WL: Uma coisa não exclui a outra. A pesquisa de Carl Sagan foi muito importante. Pode-se argumentar que se ele não tivesse feito divulgação ele não seria conhecido do publico, mas a pesquisa dele era de ponta. Por exemplo, ate a década de 60 se achava que Vênus era um paraíso tropical, e que Marte tinha vegetação. Hoje em dia se sabe que a superfície de Vênus é quente o suficiente pra derreter chumbo, e que as mudanças de cor na superfície de Marte (que se atribuía a mudança da vegetação conforme as estações) são causadas por tempestades de areia em um planeta deserto seco e frio.

Como a gente sabe disso? As visitas das sondas nos anos 70? Em parte. As visitas não descobriram isso. Elas confirmaram isso. Um certo Carl Sagan já tinha pesquisado o assunto e publicado evidências, antes da era espacial. Carl Sagan também fez descobertas decisivas sobre a composição da nevoa de Titã e a química orgânica em geral no sistema solar. O nome dele já figurava em um bom numero de artigos na Science e na Nature antes dele se enveredar pra divulgação cientifica.

Carl Sagan Credit:  SCIENCE SOURCE / SCIENCE PHOTO LIBRARY

O Neil segue o mesmo caminho dele. Os primeiros artigos dele, no final da década de 80 (o doutorado dele é de 1992), ainda são citados, mais de 20 anos depois. Qualquer trabalho citado 20 anos depois é um bom trabalho.

A propósito, o Neil é conosseur de vinhos, e banca uma noite de queijos e vinhos pro departamento uma vez por mês. Em uma dessas ocasiões lá no Museu eu perguntei a ele como foi a transição de pesquisador pra divulgador. Ele disse que apesar de toda a divulgação que faz, ele ainda dedica um dia por semana pra fazer pesquisa.

Neil deGrasse Tyson - Credit: David Britt-Friedman / MSNBC.com file

LiHS: Um grande problema da divulgação científica é traduzir para leigos o que exatamente áreas como a sua estão descobrindo. É possível explicar os frutos do seu trabalho para leigos?

WL: Essa é difícil. Ás vezes me enrolo pra responder isso ate pra astrônomos que pesquisam em outras áreas. Mas vamos tentar. Eu trabalho com formação planetária. É uma questão interessante e antiqüíssima: “Como a Terra veio a existir?”. Virtualmente toda sociedade na história registrada tentou em algum momento responder essa pergunta.

Estágios de formação do Sistema Solar - Concepção Artística. Crédito: MARK GARLICK / SCIENCE PHOTO LIBRARY Primeiro foram as não-respostas religiosas, depois achismos filosóficos. Mas podemos começar a pensar em uma hipótese cientifica. Os planetas orbitam o Sol no mesmo plano, e todos na mesma direção. A forma mais simples de obter essa configuração é supor que os planetas se formaram em um disco que orbitava o proto-Sol. E o fato que Júpiter e Saturno são gigantes gasosos indica que esse disco era um disco de gás. Pesquisar teoricamente formação planetária envolve então entender exatamente o comportamento desse disco de gás. Basicamente você tem que resolver as equações da hidrodinâmica em um campo gravitacional.

Werner Heisenberg. Crédito: AMERICAN INSTITUTE OF PHYSICS / SCIENCE PHOTO LIBRARY Mas tem um porém, e é basicamente por conta desse porém que este problema não foi resolvido no século 18. O porém é que hidrodinâmica é difícil. Muito difícil. Tão difícil que Heisenberg, depois de completar o doutorado dele em hidrodinâmica, desistiu e foi fazer Mecânica Quântica. O problema é que a equação principal da hidrodinâmica é não-linear. Não há um método matemático para resolvê-la sem fazer aproximações. É por causa disso que até hoje ainda não temos uma teoria consistente pra descrever um fenômeno como a turbulência. O que a gente faz então, se quer avançar? Cem anos atrás não tinha muito a fazer. Mas hoje a gente tem uma ferramenta poderosa: o computador. Em vez de tentar resolver a equação intratável com lápis e papel, a gente escreve um programa de computador que resolve as equações. Lembra do demônio de Laplace? Se houvesse uma entidade que soubesse o estado de cada partícula no universo, passado e futuro seriam conhecidos para essa entidade. Isso, trocando em miúdos, é uma simulação.

A gente programa um estado inicial, e esse estado inicial determina a evolução temporal subseqüente. Estamos vivendo em uma época muito especial, em que pela primeira vez os computadores se tornaram poderosos o suficiente pra resolvermos essas equações em toda sua complexidade. Fazemos hoje em dia simulações das condições no disco no qual o nosso planeta se formou. Finalmente, pela primeira vez na historia, estamos construindo uma resposta científica a essa pergunta. É com isso que eu trabalho. Perguntas que tentamos responder são a que distância da estrela os planetas se formam, quantos planetas de cada massa resultam, que processo físico é fundamental ou não, o que poderia ter sido diferente, essas coisas.

LiHS: As experiências famosas do LHC têm algum impacto sobre o seu trabalho?

WL: Não, eu trabalho com física de baixas energias. Mas eu estou doido pra saber se eles finalmente descobrem o que é matéria escura.

Michio Kaku (mkaku.org)LiHS: Como cientista que investiga a formação de planetas, o que você pensa do trabalho do SETI e das esperanças de divulgadores como Michio Kaku de encontrar vida inteligente Universo afora?

WL: Eu penso que o Universo é tão grande que a hipótese de só haver vida na Terra é tão improvável que poderia ser chamada de uma singularidade estatística. Quem defende essa idéia tem muito a explicar.

O SETI é um esforço absolutamente necessário. Pode haver alguém lá fora. O mínimo  que podemos fazer é tentar escutar. Seria inescusável se houvesse uma transmissão e a gente deixasse passar. Na verdade, mesmo a não-detecção é um resultado. Veja a pergunta: “É provável que haja vida inteligente a poucas dezenas de anos luz de distancia que esteja interessada em comunicação interestelar?” É uma pergunta cientifica. Pra responder essa pergunta precisamos do SETI. A não-detecção indica que não, que a vida não parece ser tão comum assim. Ate a década de 60 se pensava que poderia haver dinossauros em Vênus e samambaias em Marte. Antes do SETI os mais otimistas falavam sobre milhões de civilizações na Via Láctea.

Arranjo de telescópios do projeto SETI (sigla para Busca por Inteligência Extraterrestre)

Sabendo que a vida não é tão comum, podemos fazer outras hipóteses. A combinação de um Universo inimaginavelmente grande com uma probabilidade pequena de um planeta abrigar vida inteligente pode significar que civilizações tecnologicamente avançadas existam mas estejam simplesmente muito distantes. Talvez a mais próxima esteja até em outra galáxia.

De fato, há um argumento que eu acho muito interessante, que leva a possibilidade de que talvez nos sejamos a civilização mais avançada da Via-Láctea. O argumento se baseia na idéia que colonizar a Galáxia de Andrômeda (M31), localizada a dois milhões de anos luz da Via Láctea. Crédito: ROBERT GENDLER / SCIENCE PHOTO LIBRARY Galáxia é possível em um período de tempo curto em comparação com o tempo de vida da Galáxia. Mais ou menos como a própria colonização da Terra. A nossa espécie tem uma idade da ordem de cem mil anos, mas qual o tempo de colonização do planeta? O tempo entre a primeira caravela sair de Lisboa e o mundo inteiro ter sido visitado por um navio europeu foi da ordem de alguns séculos. Mil vezes menos.

Há também uma forma de colonizar a Galáxia em um tempo curto, com as máquinas de Von Neumann. Pra quem não sabe o conceito, seriam sondas auto-replicantes. Mandam-se máquinas à estrela mais próxima, a baixas velocidades, dez por cento da velocidade da luz. Chegando lá, essas máquinas trabalhariam a matéria do sistema estelar e fariam dez copias de si mesmas, mandando essas copias pra as dez estrelas mais próximas. Cada uma dessas copias chegaria no seu destino e faria outras dez copias, e assim por diante. Esse cálculo, como você pode perceber, é um calculo exponencial. Uma álgebra simples mostra que com esse método é possível visitar todas as estrelas da Galáxia em menos de cem milhões de anos. E a Via-Láctea já existe há uns bons dez bilhões de anos. Parece meio ficção cientifica, mas pode ser feito assim que houver tecnologia para gerar essa propulsão. Se houvesse uma civilização tão avançada, nos já estaríamos vendo essas maquinas no Sistema Solar.

O Sol em imagem da SOHO. Crédito: EUROPEAN SPACE AGENCY / SCIENCE PHOTO LIBRARY E além disso, estrelas vivem por bilhões de anos. Se houver uma civilização mais avançada que nós, não é razoável que ela seja mil anos mais avançada. Ela deve ser um milhão de anos, dez milhões de anos mais avançada. Pense em quanto nós avançamos em mil anos. Imagine então a nossa tecnologia em dez milhões de anos. Essa seria a tecnologia deles. Eles já deveriam estar aqui. Mas não estão.

Já vi gente argumentar que pode ser que haja vida mais avançada, mas que simplesmente eles não estariam interessados em viagem interestelar. Acho esse argumento um tanto fraco. Só basta uma civilização ser expansionista pra vermos os efeitos. Só há duas opções viáveis. Ou a viagem interestelar é impossível, ou eles não estão por perto. A segunda opção é mais provável que a primeira. Pode ser que a tarefa de colonizar a Galáxia caiba a nós.

Há também outra ideia. Erupções de Raios Gama são explosões tão energéticas que são vistas de um lado a outro do Universo. Se uma delas acontecesse na Via-Láctea, poderia esterilizar metade da Galáxia. Essas erupções podem gerar então episódios cíclicos de extinção em massa, e apenas no intervalo entre uma erupção e outra uma civilização poderia prosperar. Então, não é que a Terra tenha vindo primeiro, mas que outras civilizações tenham existido e sido extintas antes de atingir a tecnologia necessária pra se defender dessas erupções.

LiHS: Há espaço para um deus ou para espíritos no vasto universo que você estuda?

WL: Espaço…. o que mais há no Universo é espaço. Mas interessantemente, não há espaço pra um deus. Há talvez para o deus dos deístas, o deus relojoeiro que não interfere mais. Há astrônomos que nas mesas de bar depois da semana de pesquisa consideram a “hipótese” que nosso Universo seja uma simulação de computador. Mas eu pus aspas em “hipótese” porque o conceito é possível mas desnecessário, outro dragão invisível. Só mostra que o deísmo não está tão morto assim.

Atlas carregando o universo ptolomaico Entretanto, definitivamente não há espaço para o deus das infantis religiões humanas. Eu costumo dizer que o problema dos religiosos é que eles ainda não digeriram Copérnico. A Terra é um grão de poeira orbitando uma estrela como qualquer outra, perdida nos subúrbios de uma galáxia que é apenas uma entre cem bilhões de outras galáxias. Será que os cristãos realmente acreditam que o sacrifício de Jesus na Terra vai salvar o ET que mora a milhões de anos luz de distancia na galáxia de Andrômeda? Não é só uma arrogância sem sentido. É uma involução científica. Requer se colocar de novo no centro do Universo.

Para os que acreditam em gasparzinho, eu deixo outra pergunta. Espíritas vivem dizendo que espíritos desencarnados perambulam pela Terra, que espíritos vivem em Saturno, etc., não é? Me digam então, se esses espíritos não tem massa, como é que se fixam na superfície e acompanham a rotação e translação do planeta? A “explicação” que o Kardec deu foi “magnetismo”, a palavrinha mágica da época, o fenômeno novo que era parcialmente conhecido mas não totalmente dominado. Como “radiação” ate os anos 60. Os quadrinhos e os filmes já estão mudando a explicação do Godzilla e do Homem Aranha de radiação pra Crédito: LAGUNA DESIGN / SCIENCE PHOTO LIBRARY nova palavrinha mágica, “genética”. Já os espíritas continuam falando em magnetismo e não explicam porque esses espíritos que respondem a campos magnéticos não ativam os detectores de metais. O espiritismo falhou na sua tentativa de fazer uma fé raciocinada que acompanhasse a ciência. Ao invés, dogmatizou o conhecimento que se tinha no meio do século XIX.

LiHS: Como uma espécie de Richard Feynman brasileiro, você já desfilou em escola de samba. Não gostaria de ver um pouco de astrofísica no desfile das campeãs do ano que vem?

Foto: Marcio Nunes/Photo Rio NewsWL: Essas minhas andanças pelo orkut… Bem, eu sou carioca, o samba e a bossa nova estão entre as maiores expressões do Rio de Janeiro. Eu valorizo bastante a cultura carioca e o estilo de vida da minha cidade.  O Carnaval é a maior festa do mundo, e todo o mundo quer ter uma festa igual. Em Uppsala eu lembro de ter visto uma escola de samba lá, em plena neve de fevereiro, chamada, em português mesmo, “Império do Gustav Wasa”, a suecada loirinha caindo no samba. Esse ano lá em Nova York eu fui em um carnaval de salão, tinha uma escola de samba local, a “União da Ilha de Manhattan”. É contagiante. Sobre Carnaval com Ciência, ano passado foi o ano internacional da Astronomia, e soube que algumas escolas de samba desfilaram com temas astronômicos. A Unidos da Tijuca entrou com o tema “Uma odisséia no espaço”. Não vi, mas me disseram que foi interessante. Não venceu. Mas o desfile desse ano com a comissão de frente fazendo passes de mágica foi muito bonito de ver.

LiHS: Muitos brasileiros têm o hábito de falar mal do Brasil. Na parte da pesquisa científica aqui, devemos falar mal ou falar bem?

WL: Uma vez desembarcando no Rio num vôo da Air France, tinha um senhor de idade na minha frente na fila, brasileiro, reclamando pro comissário de bordo que o povo brasileiro era “muito desordeiro, uma desgraça”. Depois de meio minuto ouvindo ele falar mal do Brasil, eu senti a obrigação de explicar pro comissário, meio incomodado e meio brincando, que “falar mal do Brasil é um dos nossos passatempos favoritos”. A resposta do comissário foi um tanto inusitada. “Eu sei. É o charme dos brasileiros.”

Não sei se eu chamaria isso de charme, mas definitivamente é diferente do que se vê em outros países. Se costuma exagerar as qualidades e esquecer os defeitos. O Brasil faz o inverso. Exagera os defeitos e esquece as qualidades.

Acho que esse nacionalismo acontece em países com vizinhos expressivos, ou competidores, que são a maior parte dos países do mundo. Mas o Brasil não está integrado na América Latina. Vivendo no Chile eu me dei conta do que é o sentimento de ser latino. A televisão tem programas argentinos, o radio toca musica mexicana, se reclama das expressões caribenhas, do sotaque dos platinos, etc.. Como os vizinhos falam a mesma língua, fica claro que você é parte integrante de uma comunidade que é maior que o seu país. Aí não pode falar mal, tem que valorizar o que é bom, pra competir melhor com os outros vizinhos. O Brasil, por outro lado, é um mundo em si, e não só em tamanho. Temos outra língua e uma cultura muito rica, nossa própria música, literatura, independente do resto da América Latina, vizinhos só no mapa, porque a gente quase nunca encontra com um deles.

Como não tem ninguém pra falar mal, a gente fala mal da gente mesmo. É bom por um lado, porque incentiva a corrigir o que está errado. Mas ruim por outro, porque mina a auto-estima nacional. Todo povo desenvolvido tem um amor grande pelo seu país. Não sei se há nisso uma relação causa-efeito, mas é um dado interessante.

Observatório do Valongo (UFRJ.br) Na pesquisa, pelo que eu vejo, o Observatório do Valongo, da UFRJ, onde eu fiz a graduação, tem tido um crescimento exponencial desde que eu me formei lá em 2003. Sempre que eu volto as condições estão melhores. Quando eu era aluno lá, a internet era uma tartaruga, agora dá até pra trabalhar remotamente (logando do laptop pra outro computador) como eu preciso. A gente também exporta muito aluno pra Europa e pros Estados Unidos, que em grande parte se tornam os melhores alunos do instituto onde estão. Eu acho que isso mostra que o modelo brasileiro é muito bom. No Valongo eu fui posto em pesquisa no começo do segundo ano da graduação.

Quando me formei já tinha então três anos e meio de experiência com pesquisa. Isso é muito raro lá fora, mas é o normal na Astronomia brasileira. O comum lá é fazer uma pesquisa rápida de seis meses ao fim do curso, que ao final dá um trabalhinho de 30-50 paginas, raramente acrescentando alguma coisa de novo na área. O estudante europeu médio chega muito cru no doutorado. Chegamos lá e damos um banho neles. Em quase todo instituto na Europa onde eu vi um brasileiro, estavam impressionados com o estudante. Se esse modelo fosse usado em uma instituição de renome – Harvard, Caltech, Princeton – ouso dizer que iria ser modelo pro mundo todo.

LiHS: Viver fora é bom?

WL: Tudo tem dois lados. É bom ver outros países, outras culturas. Faz você identificar que partes do seu pensamento são opinião própria e que partes são só doutrinação da nossa cultura. Quando você identifica isso, é uma epifania, e só se imergindo em outra cultura isso acontece. Nos primeiros anos fora tudo é novo, tudo é legal, tudo é uma aventura. Mas depois, bate a saudade de casa. Fiz novos amigos em todo lugar que eu fui, mas meus bons amigos de infância estão no Rio. Nos primeiros anos na Suécia eu me esforcei pra conhecer a cultura deles, mas depois de quatro anos lá minha alegria era um show de bossa nova com violão ao vivo quando uma vez na vida outra na morte isso aparecia em Estocolmo. Quando mais tempo fora, mais forte a saudade bate. Claro, teWladimir na China (arquivo pessoal)m muita coisa no Brasil que eu não me adapto mais, a cultura de levar vantagem, a pobreza nas ruas, as classes sociais. Mas por outro lado, nos Estados Unidos isso também existe, mas eles não estão falando disso, estão falando das vantagens deles, maior economia do mundo, essas coisas. E o sonho do sueco médio também é ganhar na loto e viver sem trabalhar. A gente acaba se dando conta que as coisas que a gente fala tão mal do Brasil também existem lá fora. E no final das contas, não há lugar como a casa da gente.

No fundo, é um cabo de guerra entre ambição e saudade. No meu caso, eu ainda não decidi qual dos dois vai vencer.

LiHS: O que é a humanidade para você, no contexto cósmico?

terra_palido_ponto_azul WL: A humanidade no contexto cósmico? Absolutamente nada. A gente vive em um Universo que solenemente ignora que a gente existe. Por grande parte da sua história, a humanidade se julgou muito importante. Mas desde Copérnico só houve baque atrás de baque. Tiramos a Terra do centro e colocamos ela com os outros planetas. Tiramos depois o Sol do centro e colocamos ele com as outras estrelas da Galáxia. Depois descobrimos que havia bilhões de galáxias como a Via Láctea. Do centro do mundo pra menos que uma formiga, em pouco menos de 400 anos. É muito pra vaidade humana, e entendo por que tem muita gente que ainda não assimilou isso. Mas não acho a verdade humilhante, pelo contrário, é muito interessante se dar conta da vastidão do espaço e imensidão do tempo. O Universo realmente nos ignora, somos muitos pequenos e muito efêmeros no estado atual da nossa tecnologia. Só faremos uma diferença quando (se) voarmos até as estrelas.

Tem uma passagem muito bela em Pálido Ponto Azul, que diz “E quando a Terra morrer, depois que for calcinada ou tragada pelo Sol, outros mundos virão. E eles nada saberão sobre um lugar outrora chamado Terra”. Carl Sagan estava certo, só temos duas opções: o vôo interestelar ou a morte.

LiHS: Dr. Wladimir, muito obrigado por ceder parte do seu limitado tempo para falar conosco. Tenho certeza de que você é uma inspiração para muitos outros brasileiros que trabalham na ciência.

WL: O prazer é meu. Mas se tem alguma inspiração aqui, certamente é a Liga. Uma inspiração para aqueles que lutam contra a ignorância cientifica que infelizmente ainda existe na nossa era.

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Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org