Bule Voador

O luxo da incompetência

Autor: Adelino Santi Júnior (*)

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Nenhum projetista inteligente pode ser dar ao luxo da incompetência. Muito menos quando o aclamado projetista é, supostamente, onipotente, onipresente e onisciente.

A maior “falha” da proposta do Design Inteligente é a cegueira crônica frente a pequenos detalhes e evidências que apoiam as ideias propostas por Charles Darwin. E os processos bioquímicos são pródigos em nos fornecer tais evidências.

Nesse aspecto, o meu favorito está diretamente relacionado a um dos processos mais belos presentes na natureza, sem o qual a vida na terra seria – se possível – um bocado diferente. Trata-se da fotossíntese.

Alguns grupos de seres vivos possuem a incrível capacidade de, através de fontes luminosas, processar a energia disponível na forma eletromagnética e disponibilizá-la em substâncias químicas, que podem então ser utilizadas por teias alimentares inteiras e fornecer substrato para o desenvolvimento de grande parte da vida no planeta.

 

“A eficiência fotossintética está longe, muito longe, de ser um processo perfeito”

Nenhum processo antrópico conseguiu assimilar com tamanha destreza a energia solar ou, ainda, manter a eficiência termodinâmica do processo fotossintético ao processar os raios solares. Entretanto, a eficiência fotossintética está longe, muito longe, de ser um processo perfeito, equilibrado e harmônico. A maioria das espécies vegetais compromete sua capacidade de assimilação energética, simplesmente por utilizar vias bioquímicas “primitivas” e, se me é permitido fazer comparações com a tecnologia humana, ultrapassadas.

Antes de entrar no mérito das falhas é preciso fazer um pequeno resumo do processo fotossintético.

A fotossíntese resume-se, basicamente, na utilização de luz solar para quebrar moléculas de água no interior de certas estruturas celulares conhecidas como cloroplastos. A quebra da molécula de água gera dois subprodutos: elétrons e prótons.

Os elétrons são utilizados como “pacotes de energia”. São eles que irão transportar a energia advinda da luz e possibilitar que as plantas fixem o CO2 em moléculas de carboidratos, aminoácidos e ácidos graxos. O CO2, por sua vez, é retirado da atmosfera e é primeiramente “capturado”, na maioria das espécies vegetais, por uma enzima apelidada de Rubisco.

 

“É aqui que surge nossa tão esperada ineficiência”

A Rubisco tem como função “prender” o CO2 e disponibilizá-lo para que seja transformado em um precursor de açúcares, aminoácidos e ácidos graxos; moléculas que serão utilizadas tanto por vegetais quanto animais, fungos, bactérias, etc…

É aqui que surge nossa tão esperada “ineficiência”. A Rubisco não é uma boa enzima para fixação de CO2 em ambientes ricos em O2, como a nossa atmosfera. E por um simples motivo: A Rubisco liga-se preferencialmente ao O2. Deixando de lado o CO2 e interrompendo o processo fotossintético, cria um problema para a maioria dos vegetais: a fotorrespiração.

Com a fotorrespiração, outros subprodutos são gerados. Esses subprodutos, no entanto, não possuem utilidade para a célula, que precisa lançar mão de outros processos bioquímicos, longos e com alto custo energético, para se livrar desses subprodutos.

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Esses processos que tentam “remediar” a fotorrespiração consomem O2 e energia (disponibilizada pela queima de carboidratos gerados pela fotossíntese), desperdiçando, assim, tempo e energia que poderiam ser utilizados no crescimento do vegetal. De fato, algumas espécies vegetais consomem metade da energia fixada pela fotossíntese no processo de remediação da fotorrespiração.

Certamente, não há nada de inteligente na utilização de uma enzima que não é a melhor das opções para se fixar carbono em uma atmosfera rica em oxigênio. Mas, diferentemente da proposta ad ignorantiam apresentada pelos defensores do Design Inteligente, a Teoria da Evolução apresenta não só respostas, como explicações plausíveis para a existência desses processos ineficientes.

É sabido que os primeiros organismos fotossintetizadores surgiram em um ambiente muito diferente do nosso. Quando surgiu, há mais de 3,4 bilhões de anos, o processo fotossintético ocorria em um planeta com atmosfera quimicamente muito distinta da atual, onde o oxigênio não era um problema, sendo quase inexistente.

 

“Um tiro no pé do Design Idiota”

A Rubisco é um resquício dessa época, quando os caminhos bioquímicos da fotossíntese não precisavam se “preocupar” com possíveis desvios causados pelo oxigênio, já que este existia em proporções muito inferiores às atuais.

De fato, nem todas as espécies fotossintetizadoras sofrem com a fotorrespiração. A evolução dos vegetais acabou por desembocar no surgimento de outras vias de fixação do carbono, como a realizada por gramíneas (cana-de-açúcar, milho, etc). Essas espécies apresentam uma eficiência muito superior na fixação de carbono, além de maior resistência à perda de água.

Um tiro no pé do “Design Idiota” e uma confirmação da célebre frase de Theodosius Dobzhansky: “Nada em biologia faz sentido se não à luz da evolução”.

 

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(*) Colaborador Convidado do Bule, Adelino de Santi  Júnior é biólogo formado pela Universidade de São Paulo; mestrando em ecologia aplicada; professor de biologia para o Ensino Médio e pré-vestibular. sandi.esalq@gmail.com

 

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Bibliografia:

Biology of plants. PH Raven, RF Evert, SE Eichhorn – 2005 – WH Freeman

 

 

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