Bule Voador

Alguém está pronto para morrer?

Fonte: Desarrumo

Autor: Ticiano Moraes

Editor: Alex Rodrigues

Um prazer que desfruto atualmente é correr a noite olhando as estrelas. Uma ilusão muito interessante me mover harmoniosamente e perceber as estrelas paradas. Mas claro que elas não estão paradas, se movem com uma magnitude que mal posso imaginar.

Somos feitos de tal maneira que parecemos o centro do cosmos. Sim, porque quando corro a noite não sou eu apenas que olho. Elas também me olham, em silêncio. Não me aprovam nem desaprovam. Não riem, não choram. Não inspiram nem expiram. Mas correm demais, o tempo todo, em busca de lugar nenhum. Talvez isso me seduza de verdade, ser capaz de viver em busca de coisa alguma a não ser a vida mesma, o estar vivo.

Me parece que somente quando formos capazes de viver assim estaremos prontos para morrer.

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“Negar a morte é negar o ciclo da vida”

Mas por enquanto não estamos prontos nem para falar em morte, quanto mais em morrer. Tanto que quase todo mundo que pensa se suicidar pensa em deixar uma carta. Você deixaria uma carta? Ou teme mesmo pensar sobre isso? É mórbido? Acho, e uso a palavra achar mesmo, ao contrário dos hipócritas que não gostam dessa palavra porque querem demonstrar uma certeza que está além de nós, ou aquém. Então, acho que mórbido mesmo é viver alienado da realidade mais básica que é o ciclo de vida. Negar a morte é negar o ciclo.

Nada mais contraditório que suicidar e deixar um bilhete, que é uma tentativa de prolongar um pouco mais a existência. Posso não existir, mas no que os outros pensarem em mim existirei um pouco mais. E  quase todo nosso projeto de vida não é nesse sentido? Deixar herdeiros, por exemplo. Como se deixar herdeiros fosse se perpetuar. E é isso mesmo que as pessoas experimentam. Ao morrerem seus filhos não suportam a agonia de não se perpetuarem.

Mas claro que ninguém vai se perpetuar. Nossa existência enquanto espécie é um segundo no cosmos. Claro que um segundo é muito. A espécie vai morrer, o planeta, o sistema solar… Que cálculo absurdo fazem os humanos que pensam se perpetuar. “Ah, minha vida não foi em vão! Vou deixar algo para a posteridade!”

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“Não é deprimente pensar assim, é libertador”

Sim, sua vida foi em vão. Você não serve para nada, é um acidente apenas. Todo mundo é dispensável. Acham que é deprimente pensar assim. Mas engraçado, para mim não é deprimente. Nunca vi uma pessoa deprimida que corre 20 km por semana na companhia das estrelas.

Não é deprimente pensar assim, é libertador. Me sinto realmente livre em não precisar ser útil, em não precisar dar significado à minha vida, já que todos os significados são apenas invenções desesperadas para enganar o tempo, o que significa enganar a morte. Sim, sou inútil. Mas quanto mais tomo consciência da minha inutilidade, mais livre me sinto, mais livre para desfrutar dessa existência mínima.

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“Essa consciência da falta de sentido, garanto que não a troco por deus nenhum”

Engana-se redondamente quem passa a vida tentando fugir do vazio, tentando preencher o vazio com toda uma cultura de entretenimento. Melhor faria tentando dar uma espiada nesse vazio que é não ter sentido a vida.

Essa consciência da falta de sentido, garanto que não a troco por deus nenhum. Pois quando acreditava em Deus, sentia amortecida uma parte dessa angústia de existir que acompanha nossa condição, mas também não tinha acesso a essa linguagem das estrelas, estranha e vazia, mas brilhante.

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“Ainda não estou pronto para morrer”

Logo, se eu pudesse prever minha morte e estivesse realmente pronto para ela, poderia vir correndo apagar todas as palavras que penso serem minhas. Já que é o fim, que seja de tudo. Mas não estou apagando as palavras. Ao contrário, estou escrevendo, tentando marcar alguma coisa. Ainda não estou pronto para morrer. E desconfio agora que nunca alguém estará pronto para isso. Desconfio apenas, baseado nesses 10 mil movimentos que acontecem em minha alma e a contradizem de esquina em esquina.

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Alex Rodrigues
Carioca de nascimento (15/07/79), por
  • andms

    Porra, cara. Tava pesquisando alguns textos sobre morrer aqui numa sexta a noite e me deparo com seu texto. Traduz quase por completo o que venho pensando nos últimos tempos. Sobre a nossa importância, sobre nossos planos para o futuro, sobre deixar uma ‘marca’ para o futuro, sobre deixar a carta, sobre o sentido final de nossa vida, sobre a morte do universo, enfim…. Acho que quem pensa muito a respeito da vida chega mesmo a essas conclusões, e esse texto caiu como uma luva para mim. Muito bom