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Karl Popper e a Filosofia da Ciência

Autor: Homero Ottoni 

Muitos dos conceitos que nós, seres humanos, criamos para melhor lidar com aspectos do nosso mundo precisam ser bem definidos, bem determinados, sob pena de tornar a comunicação mais difícil do que já é naturalmente.

Conceitos vagos ou imprecisos impedem que um debate racional se desenvolva e ele pode acabar em impasse, em que cada lado usa o mesmo termo de forma diferente, sem chance de se chegar a um acordo, compreensão do ponto de visto contrário ou entendimento sobre o que se debate.

O uso do termo “energia” é um exemplo clássico de mau uso de termos vagos e imprecisos, gerando todo tipo de confusão, mistificação e distorção que podemos imaginar. O conceito de “Ciência” também.

A Ciência é imensamente importante para nossa compreensão do mundo, e ao mesmo tempo profundamente mal compreendida por quem faz uso do termo. E há motivos para isso, pois não é um conceito simples ou fácil.

 

“Para conhecimento mais profundo da natureza do próprio saber, não há atalhos”

Toda uma área do conhecimento foi construída para tentar explicar e definir esse conceito-chave de nossa compreensão do mundo: a Filosofia da Ciência. E um dos mais influentes, importantes, capazes e interessantes pensadores a se debruçar sobre esse problema, definir o que é ciência, foi Karl Popper, um de meus heróis intelectuais, junto a Darwin e David Hume. E este artigo vai tentar explicar a visão básica deste pensador sobre a ciência e seus desdobramentos.

Infelizmente, não há uma forma simples ou curta de fazer isso. Embora seja importante tentar ser claro e simples ao se discutir qualquer problema, existem aqueles que são de natureza complexa e difícil, e precisam ser abordados de forma a refletir essa complexidade. Para conhecimento mais profundo da natureza do próprio saber, não há atalhos.

 

O que é Ciência

· Investigação racional ou estudo da natureza, direcionado à descoberta da verdade. Tal investigação é normalmente metódica, ou de acordo com o método científico – um processo de avaliar o conhecimento empírico;

· O corpo organizado de conhecimentos adquiridos por estudos e pesquisas.

Ciência tem diversas definições, mais ou menos amplas, para serem utilizadas conforme a necessidade ou ocasião. Pelo menos em conversas mais corriqueiras e para debates relacionados, mas acessórios. Quando se discute a ciência propriamente dita, é mais complicado. Uma definição que eu acho interessante para começar a entende-la é a que lida com o processo de produção da ciência: ciência é o conjunto de conhecimentos, confiáveis e coerentes, produzidos através do método científico.

Para quase todos os propósitos é uma definição suficiente, útil e válida. Mas é um tanto circular. O que é método científico? É um sistema usado pela ciência para testar o conhecimento, conclusões e alegações. Assim, ciência é algo que usa a ciência para ser produzido, e não esclarece muito, afinal.

 

Indução versus dedução

David Hume analisou o “problema da indução”, o conhecimento do mundo através da indução. Grosso modo (porque, tentar explicar David Hume levaria a outro artigo, mais alguns livros, palestras, talvez um curso intensivo de alguns anos, etc, etc..:-), considere que, depois de ver o Sol nascer todos os dias, por alguns anos, seria possível dizer que amanhã o Sol também nascerá. Ou depois de ver apenas cisnes brancos por muito tempo, concluíssemos que todos os cisnes são brancos. O passado seria um guia confiável para o futuro.

Esse seria um conhecimento válido, científico, obtido por indução. Mas Popper (como Hume e até Einstein) via muitas falhas nesse processo. Depois de analisar muitos corvos negros, por exemplo, e afirmar que todos os corvos são negros, bastaria encontrar um único corvo branco para que a afirmação se mostrasse incorreta. Não se tratava de um conhecimento, uma conclusão, confiável.

 

“A indução poderia até servir de base para o início da investigação”

No lugar da indução, a dedução seria a ferramenta para produzir ciência. Assim, elementos deveriam ser analisados em conjunto para se deduzir uma regra geral, uma lei ou um conhecimento, que deveria ser validada por verificação posterior.

É o mesmo processo que leva a investigação criminal a encontrar o criminoso. De forma simplificada (e bastante grosseira, pois temos muito ainda a cobrir nesse assunto), um indutivista encontraria o criminoso procurando por quem habitualmente comete este tipo de crime, e o dedutivista procuraria evidências que ligassem o criminoso ao local, vítima, arma ou situação do crime. Observe que a indução poderia até servir de base para o início da investigação (MO, ou modus operandi), mas não seria suficiente para uma conclusão confiável, científica.

O caso particular (juízo particular) não pode, a partir de um salto não embasado, justificar todos os casos (juízo universal).

 

Demarcação – Ciência versus pseudociência (física versus metafísica)

Popper considerava que mesmo a dedução não leva a certezas, mas apenas a possibilidades, probabilidades, aproximações da realidade ou verdade. Teorias científicas não seriam exatas, mas aproximadas. Todo o esforço, então, seria para se chegar cada vez mais próximo da realidade.

Ele pretendia um critério que demarcasse os campos, definisse limites, do que seria ciência e do que não seria ciência. Sendo toda teoria provisória, temporária (no sentido estrito de que pode ser melhorada ou ajustada), é preciso determinar quando a ciência termina e a pseudociência começa.

Chegamos ao conceito de falseabilidade. É um dos conceitos mais mal compreendidos na filosofia da ciência, e muitos parecem pensar que ser falseável equivale a ser falso, ou seja, que se trata da aceitação de que todo conhecimento científico é “falso” em alguma medida, e portanto, qualquer outro conhecimento tem a mesma validade (uma questão de escolha, como dizem alguns).

Todavia, algo pode ser falso ou não e – ao mesmo tempo – pode ser falseável ou não. São coisas distintas, bastante distintas. Alguns exemplos com outros termos: algo pode ser “vendável” mas não ter sido vendido, ainda. Ou seja, pode estar disponível para venda, mas ninguém o comprou. A água pode ser “potável”, mesmo que ninguém a tenha bebido. Um banco pode ser “vulnerável” a roubos, mesmo que ninguém o tenha roubado.

 

“Só é possível tentar “provar” que uma teoria é falsa, se existir uma forma de fazer isto”

Uma teoria deve ser falseável, mesmo que não seja falsa ou não tenha sido demonstrada falsa. É a possibilidade de ser, que torna uma teoria científica. E boa parte do esforço da pesquisa científica é justamente tentar falsear uma teoria. Quanto mais ela resiste, mais se torna confiável e provável de ser correta.

Toda teoria cientifica, em especial as mais revolucionárias, recebeu forte, fortíssima oposição, quando proposta inicialmente. Diversos pesquisadores fizeram o possível para demonstrar que eram incorretas, criando experimentos que demonstrassem que era falsa. Ao resistir a estas verdadeiras baterias de testes, a teoria não se “provou” definitivamente correta, mas aumentou sua confiabilidade, a probabilidade de ser correta.

Entretanto, só é possível tentar “provar” que uma teoria é falsa, se existir uma forma de fazer isto ou, em outras palavras, se a teoria for falseável, se existir alguma possibilidade de refutar esta teoria. Mesmo que ainda não seja tecnicamente possível fazê-lo, deve existir a possibilidade.

Quando Einstein propôs a teoria da relatividade em 1905, uma forma de testá-la seria medir a passagem da luz de uma estrela pelo campo gravitacional de uma outra estrela, o Sol, por exemplo. Naquele momento, isto ainda não era possível. Foi preciso esperar pelo eclipse de 1919 para que o teste fosse feito. Mesmo assim, a relatividade era científica, pois havia uma foram de falseá-la (se a observação durante o eclipse fosse outra, isso refutaria a teoria de Einstein).

 

“É possível falsear a Teoria da Evolução”

Para Popper, essa é a marca da ciência, o que fornece a demarcação entre ciência e pseudociência, entre física e metafísica: a falseabilidade.

Vejamos então algumas teorias científicas, como a Teoria Gravitacional. Matéria atrai matéria na relação direta das massas e no inverso do quadrado das distâncias. Há uma forma de falsear a teoria? Sim, encontrar qualquer corpo orbitando outro sem obedecer a essa razão, por exemplo. Um pesquisador poderia, para provar que a teoria é falsa, colocar um satélite em órbita que não se comportasse dessa forma. Ou descobrir um corpo celeste que não se comportasse dessa forma.

O fato de que nunca foi possível colocar um objeto em órbita que não obedecesse a essa regra, dá confiança à teoria. Mas ainda assim existe uma forma de provar que ela é falsa.

E a Teoria da Evolução? Também é possível provar que é falsa, também existem possibilidades que podem invalidar a teoria. O fato de que nunca se conseguiu uma refutação confere maior confiança à teoria, dá credibilidade a ela. Todavia, é possível falsear a Teoria da Evolução.

 

“Se meu mapa astral apresenta algo que parece correto a meu respeito, é um “acerto”

O famoso coelho cambriano, por exemplo, refutaria totalmente a Teoria da Evolução, como é formulada hoje. Não importa que jamais se tenha encontrado um fóssil na camada geológica “errada” (coelho no período cambriano). Basta saber que se ele fosse encontrado, falsearia a teoria. Existem várias formas de se demonstrar que a evolução é falsa. Teorias científicas são reais, verdadeiras, mas falseáveis. São teorias científicas, no sentido popperiano.

E pseudociências? Como se saem no teste de falseabilidade?

Não muito bem..:-)

A Astrologia, por exemplo. Não há nenhuma forma de falsear a hipótese “astros influenciam as vidas e o futuro das pessoas, a partir da data de seu nascimento”. A hipótese “astrologia” é construída à prova de refutação. Nenhum estudo ou experimento jamais logrou demonstrar que não é real, porque da forma como é construída a astrologia, não existe forma de fazer isso. A astrologia é infalseável.

Se meu mapa astral apresenta algo que parece correto a meu respeito, é um “acerto”. Se apresenta algo claramente errado, é influência de “outras variáveis”. Ou seja, não importa o que um mapa astral diga, nada pode ser apresentado como refutação. Não há nenhum mecanismo conhecido que possa, caso ocorra, refutar a astrologia.

 

“Pode parecer piada, mas é a forma como pseudociências são construídas”

Mesmo que um mapa astral cuidadosamente feito não apresente um único acerto, e apenas erros crassos, isso não falseia a teoria, pois é até mesmo “esperado” que ocorra, devido a forma como os proponentes apresentam esse “conhecimento”.

Algumas pseudociências até tentam ganhar o status de “científicas”, apresentando-se para testes de falseabilidade. Mas rapidamente desistem e voltam a situação infalseável. A homeopatia, ao ser testada em laboratório, e falhado, resolveu que seu “paradigma” é diferente, que ela não pode ser avaliada da mesma forma como o restante das teorias científicas, que sua aplicação é “holística”, que até as falhas são na verdade “evidências” de que ela é eficaz, mas diferente, e que não ter forma de ser demonstrada falsa é uma virtude, não uma falha da teoria. Há um relato do pesquisador Hyman em um estudo sobre homeopatia em que, depois de mais um teste feito, com rigoroso controle duplo-cego, o homeopata diz: “tá vendo, é por isso que nunca fazemos testes duplo-cegos, eles nunca funcionam”..:-)

Pode parecer piada, mas é a forma como pseudociências são construídas: à prova de refutação. O erro é sempre “dos outros”, jamais dela mesmo.

 

Hipóteses, teorias e fatos

Hipóteses científicas teorizam sobre fatos e necessitam ser corroboradas por experimentos. Experimentos testam as “previsões” e desdobramentos de uma hipótese. Se há um acumulo de previsões validadas; se o conjunto de evidências, dados, fatos, experimentos e previsões validades se acumula; se as tentativas de falsear a hipótese se acumulam, e falham sempre, a hipótese se torna uma teoria científica confiável. Não a verdade absoluta, e nem mesmo uma certeza, mas algo mais sutil, uma explicação confiável, até onde é possível ser confiável. Esse processo se chama “verificação”.

Quanto mais verificações, quanto mais elementos de convicção, mais sólida é uma teoria científica. E sempre falseável, ou seja, um único elemento contrário de prova e a teoria será refutada.

 

O Dragão na Garagem

O conhecido exemplo criado por Carla Sagan do dragão na garagem pode ajudar a entender o problema. Suponha que seu amigo mais próximo diga, “veja, eu tenho um dragão em minha garagem”. Você, como uma pessoa de mente aberta, e apreciador de dragões, fica animado, e diz “puxa, gostaria muito de ir a sua garagem ver isso de perto”.

Na garagem, ele abre a porta e você olha para dentro. Nada, não vê nada que não devesse existir em uma garagem, nenhum dragão. Você olha para o amigo com cara de espanto, e este diz, “pois é, ele é invisível”.

Tudo bem, um dragão invisível é mais legal ainda que um dragão normal (supondo que existam dragões normais, claro), e você se adianta para tocar o dragão com as mãos. Mas…

É um dragão intangível, diz o amigo.

Você então resolve jogar farinha no chão, para ver as pegadas dele, mas, “ele flutua”, diz o amigo. Você respira mais fundo, para sentir o cheiro do dragão, mas, “ele é inodoro”. Você resolve buscar um sensor de calor, para medir o fogo que sai das narinas, mas, “o fogo desse dragão é frio”. Você então sugere um espectrógrafo de massa, para medir a massa do dragão, mas, “ele é incorpóreo”.

 

“Não ser científico não significa, entretanto, que não algo não exista”

Para cada coisa que você sugere para detectar o dragão, seu amigo cria uma explicação sobre porque não vai ser possível. O dragão é infalseável!

Claro que nada disso prova que não existe um dragão invisível, inodoro, incorpóreo, intangível, que cospe fogo frio na garagem de seu amigo. Mas a condição de não existir nenhuma maneira de falsear a existência desse dragão torna-o não científico e indistinguível de “dragão nenhum”. Um dragão com essas características e nenhum dragão são a mesma coisa, para todos os efeitos práticos.

Não ser científico não significa, entretanto, que não algo não exista. Essa é uma acusação comum contra a ciência e contra cientistas: mas vocês pensam que porque a ciência não provou, então não existe, seus, seus, seus… “mentes fechadas”?

Não, a ciência não pensa dessa forma. Mas sem evidências, sem ser falseável, não é ciência, não é científico. A questão é que mesmo as pessoas que fazem essa acusação entendem que é mais seguro confiar em conhecimento científico que em outros tipos de conhecimento.

 

“Críticos da demarcação de Popper a utilizam alguma forma”

Estes são os critérios de demarcação de Popper. Existem críticas a ele, mas no momento é a melhor forma que dispomos para definir o alcance do termo “científico”. Mesmo críticos da demarcação de Popper a utilizam alguma forma, ou teriam de aceitar a astrologia, com todos seus “dados empíricos”, todos seus cálculos, toda sua parafernália verborrágica, como ciência.

Em resumo, a posição de Popper, a demarcação, defende que:

· Uma teoria que não pode ser refutada não deve ser considerada científica. A irrefutabilidade não é uma virtude, mas, sim, um defeito.

· Todo o teste ou experimento sobre uma teoria é uma tentativa para refutar esta teoria. Ser testável, nesse sentido, equivale a ser refutável.

· A descoberta de novos fatos, de acordo com as previsões de uma teoria, não a elegem a verdade última, apenas a corroboram. Quando é corroborada por um teste ou experimento, ou seja, quando uma observação cujo resultado poderia eventualmente refutar a teoria não se confirma, isto torna a teoria mais robusta e confiável, sem, no entanto, confirmá-la 100% ou torná-la uma verdade absoluta.

 

“Ao resistir a tentativas de refutação, uma teoria será sempre mais confiável”

E, para não restar engano, isso não significa que o que estiver fora dessa demarcação não existe ou não é verdadeiro. Significa apenas que não é científico. A metafísica pode ser verdadeira, real? Pode. Pode ser científica? Não, pois não é falseável.

Esse engano deriva do fato, evidente para todos, de que na prática, na vida real, é mais seguro escolher, fazer opções, definir caminhos e posições, baseado no conhecimento científico. É uma escolha que mesmo o mais metafísico dos indivíduos acaba fazendo, ao escolher ser operado de uma apendicite aguda (e receber antibióticos) do que ir ao xamã e esperar que processos metafísicos o curem. “Pode ser” que existam esses processos metafísicos de cura, e pode ser que sejam eficazes, mas temos “certeza” de que o cirurgião e a medicina moderna no hospital existem e são eficazes.

Ao resistir a tentativas de refutação, uma teoria será sempre mais confiável que outra que só possui defensores e apoiadores, mas não passou pelo teste de falseabilidade.

Este não é um assunto fácil, mas é um assunto fascinante. Para quem quiser saber mais, sugiro que comece pelos links abaixo, ou procure por Karl Popper, David Hume e o Problema da Incompletude na Internet e em livros. Vale o esforço, de verdade.

Wikipédia – Karl Popper

A Lógica da Pesquisa Científica – Karl Popper

Conjecturas e Refutações – Karl Popper

Karl´s Popper Philosophy of Science – Karl Popper

Wikipedia – David Hume

Tratado da Natureza Humana – David Hume

Investigação sobre o Entendimento Humano – David Hume

Da Imortalidade da Alma e Outros Textos Póstumos – David Hume

Wikipédia – Falseabilidade

 

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