Bule Voador

Augusto Cury: um mestre da imodéstia

Autor: Jerônimo Teixeira
Fonte: Veja on-line, edição 1938
Editor: Eli Vieira

"O Charlatão", de Jan Miel (1650)

Com suas frases simplórias e doidices “científicas”, o psiquiatra Augusto Cury tornou-se um best-seller da auto-ajuda

O psiquiatra Augusto Cury diz que sua obra teve início depois de uma crise depressiva que o atingiu quando ainda cursava a faculdade de medicina em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. “Eu usei a dor para me construir”, afirma. A construção ficou firme: Cury é hoje, aos 47 anos, um homem genuinamente feliz. Embora insista nos temas espirituais, sua felicidade tem uma polpuda base material: em 2005, ele foi o escritor brasileiro que mais vendeu no país. Três obras suas – Pais Brilhantes, Professores Fascinantes, sua incursão na pedagogia, e os motivacionais Nunca Desista de Seus Sonhos e Você É Insubstituível – aparecem entre os best-sellers do ano passado [2005], na lista publicada nesta edição de VEJA. Prolífico, ele ainda tem outros catorze títulos, na maioria pela editora carioca Sextante. No total, vendeu mais de 1,2 milhão de exemplares nos últimos doze meses, marca que o coloca taco a taco com Dan Brown, autor de O Código Da Vinci. Seus livros são coletâneas de fórmulas do tipo “os sonhos abrem as janelas da mente”. Mas ele não se considera um autor de auto-ajuda. Cury se apresenta como um cientista, o revolucionário criador de uma nova teoria sobre o funcionamento da mente humana – a inteligência multifocal, que pretende ensinar o leitor a controlar as “janelas” de sua memória.

O livro fundamental da “teoria” de Cury é Inteligência Multifocal, publicado pela Cultrix, em 1998. “Os únicos trechos mais ou menos aproveitáveis são versões pobres das idéias de cientistas como o neurologista António Damásio. O resto é pseudociência”, diz Renato Zamora Flores, professor do departamento de genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e uma autoridade na análise de imposturas científicas. Cury não dá muita atenção aos críticos: “Quase ninguém entendeu minha teoria, de tão complexa que ela é”. Mas ele está feliz por finalmente ser entendido em Londrina, no Paraná, onde o Centro Universitário Filadélfia (Unifil) já oferece cursos de especialização, em nível de pós-graduação, em inteligência multifocal. “O doutor Cury é um sábio. Perto dele, dá para se ter uma idéia de como seria conviver com os grandes filósofos da história”, diz o psicólogo Silas Barbosa Dias, coordenador de um desses cursos. Foi graças à ingerência desse admirador ardoroso que Cury ganhou o título de doutor honoris causa pela Unifil. Dias, aliás, vai veranear ao lado de seu mestre, na casa que Cury tem em Ubatuba, no litoral paulista.

Cury vive com a mulher – Suleima, que foi sua colega na faculdade de medicina – e as três filhas em Colina, cidadezinha de 17.000 habitantes próxima a Barretos, a capital dos rodeios. “Sou um escritor simples, que gosta do anonimato”, diz. No sítio onde mora, com 16.000 metros quadrados, pavões e galinhas-d’angola passeiam pelos gramados – e também há carneirinhos que o autor alimenta com mamadeira. Originalmente, Cury planejava instalar uma clínica ao lado da casa, mas hoje tem pouco tempo para a psiquiatria. Como é comum entre autores de auto-ajuda, ele montou seu circuito de conferências: viaja para proferir de quatro a cinco palestras por mês e recebe entre 8 000 e 10 000 reais por cada uma delas. Sua fala mansa e pausada freqüentemente se enreda no jargão “multifocal” – ele gosta de usar expressões como “pensamento tridimensional” e de inventar curiosas moléstias psicológicas, como o Mal do Logos Estéril. Sua imodéstia é proverbial, o que transparece nos livros. “Falo com humildade, mas, creio, fiz importantes descobertas que provavelmente reciclarão alguns pilares da ciência durante o século XXI”, anuncia em Nunca Desista de Seus Sonhos.

A crença na própria genialidade vem de longe. Sua mulher, Suleima, conta que, quando os dois ainda namoravam, Cury certo dia a convidou para tomar um suco. Ao puxar a carteira para pagar a bebida, deixou cair no chão uma série de papeizinhos: eram pensamentos que ele anotava. “Foi então que ele me disse que era uma pessoa meio diferente”, lembra Suleima. A “pesquisa” de Cury se resume a isso: anotar os próprios pensamentos. E, não satisfeito com sua contribuição à ciência, o autor quer deixar sua marca na literatura. Estreou na ficção no ano passado, com dois romances, O Futuro da Humanidade (editado em Portugal com um título um pouco menos grandioso: A Saga de um Sábio) e A Ditadura da Beleza e a Revolução das Mulheres. O primeiro narra a formação de um “filósofo da psicologia”, e o segundo faz uma crítica descabelada à “masmorra psíquica” que os padrões da moda imporiam às mulheres. Ambos são estrelados por um alter ego do romancista, com nome de desbravador: Marco Polo, o “poeta da psiquiatria”. Juntos, os dois livros venderam perto de 100.000 exemplares. Uma marca respeitável, mas ainda muito abaixo das 260.000 unidades de Pais Brilhantes, Professores Fascinantes comercializadas em 2005. A ficção de Augusto Cury pode não ter conquistado as massas, mas anda bem cotada entre a elite dirigente: no ano passado, a governadora do Rio, Rosinha Garotinho, presenteou o presidente Lula, no seu aniversário, com um volume de O Futuro da Humanidade. Sabe-se que Lula não é dado à leitura. Fica o conselho, presidente: não precisa começar agora.

Ciência de Araque

As baboseiras de Inteligência Multifocal, obra em que Augusto Cury expõe suas “teorias”.

Pesquisa precária

A baboseira: “Não usei os levantamentos bibliográficos nem uma teoria prévia como suporte de interpretação, pois a teoria que desenvolvoé totalmente original.”
Onde está o erro: é a pesquisa bibliográfica que garante que um cientista não vai repetir o que outro já disse. Reivindicar originalidade sem ter freqüentado os livros é uma tolice.

Pensamentos contraditório

A baboseira: “Os computadores jamais passarão de escravos de estímulos programados, ainda que incorporem um processo de auto-aprendizagem.”

Onde está o erro: Cury ignora todas as discussões teóricas sobre inteligência artificial — e ainda resvala numa contradição em termos: se um computador for capaz de aprender, não será mais escravo da programação.

Confusão de conceitos

A baboseira: “A inteligência e a personalidade representam, aqui, termos equivalentes.”
Onde está o erro: personalidade diz respeito às características que distinguem um indivíduo do outro, enquanto inteligência se refere à capacidade de processar informações. Na literatura científica, são conceitos distintos. Misturá-los só produz confusão.

Curas milagrosas

A baboseira: “Muitos casos de doenças psíquicas de difícil tratamento, inclusive de pacientes autistas, têm sido resolvidos pela terapia multifocal.”
Onde está o erro: se fosse verdade, seria caso para Nobel de Medicina: não há cura para o autismo

Matemática pitoresca

A baboseira: “Até na matemática as teorias são limitadas. Até nas indiscutíveis operações há limitações, pois 1 mais 1 só é 2 se o primeiro 1 é, em todos os níveis microessenciais, exatamente igual ao segundo 1.”
Onde está o erro: a se dar crédito a esse absurdo, bastaria mexer na tal “microessência” para fazer com que 1 mais 1 fosse igual a 3.

 

Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org
  • debcaroli

    O próprio sistema de aprendizado dos algorítimos dos sistemas é baseado na programação. Cury está certo, ainda que aprenda, ainda é escravo da programação feita por humanos.

  • debcaroli

    Sobre a originalidade, me lembrou quando, aos 8 anos, aprendi fazer crochê e “inventei um ponto”, toda eufórica fui mostrar pra minha mãe minha invenção, e ela me destruiu quando mostrou que o danado do ponto que eu acabara de inventar já tinha até nome. kkkkk

  • Ricardo B. Marques

    Nem sou fã de Augusto Cury e divirjo dele em vários pontos que aborda, embora, diferente do autor do presente artigo, ouso reconhecer um lado positivo do trabalho de Cury. Contudo, os argumentos de desqualificação de Cury e de suas ideias e falas, aqui expostos, são simplórios e risíveis, falta-lhes mérito o mais elementar. Aliás, se há alguém sem moral para acusar qualquer coisa de “ciência de araque” e de “pseudociência” seria Eli Vieira, que se esconde por trás do argumento de autoridade proporcionado por seus títulos de biólogo e geneticista, porém aqui e ali comete desonestidades intelectuais em prol de tentar provar ideologias pseudocientíficas (por exemplo, quando, em defesa de suposta condição inata que ele atribui à homossexualidade, citou como “provas”, num vídeo, trabalhos com gêmeos que, quem se interessou em pesquisar e ler, viu que os autores declararam como “inconclusivo” – e por aí vai). Nada tenho contra Eli Vieira ou quem quer que seja, procuro respeitar tudo e todos, defendo a ampla liberdade de pensamento, crença, opinião e expressão; mas, qualquer que seja a pessoa e sua ideologia, se faz uso de manipulação de informações e seletividade de paradigmas cientificistas como se fosse a representação real da ciência de fato, disponho-me a fazer necessários contrapontos. Uma questão de honestidade, de coerência… E de equilíbrio. Sincero abraço a todos.

  • Georgia Daphne Sobreira Gomes

    Parabéns, Eli!
    Augusto Cury é “cientista” de frases de traseira de caminhão. Como psiquiatra é um ótimo vendedor de livros. Graças ao monte de pessoas ingênuas, que neste país e no mundo são a maioria, ele vende suas loucuras como água.

  • Kleyton D’Avila

    Se as teorias de Cury são vazias, mais vazias ainda são as críticas impostas neste blog que parece tentar pegar carona na fama do autor… Como sempre pessoas de sucesso estão sujeitos à esse tipo de “stalker”. Faz parte da sociedade, acostumemo-nos.

    • Állan Wesley

      E as críticas são vazias por que, mesmo?

      • Vanessa Fonseca

        a argumentação é tão” frase de caminhão”. se o augsuto cury fosse um plagio não seria estudado no mndo todo. tem gente invejoso e recalcada criticando o sucesso dos outros.

        • Állan Wesley

          “se o augsuto cury fosse um plagio não seria estudado no mndo todo”.

          Non Sequitur.

          “tem gente invejoso e recalcada criticando o sucesso dos outros.”

          Ad hominen.

          Ah, e aprenda escrever.

  • Vanessa Fonseca

    cientista ou não, ele sabe fazer seu marketing, defirente de pessoas que querem ganhar fama com o sucesso dos outros. essa é a diferença entre o “inteligente” cheio de diplamos, mas não faz nada que de fato agregue a humanidade.

  • Vanessa Fonseca

    Outra coisa, ele foi o único que conseguiu com suas “frase de caminhão” chegar a todas as pessoas para conseguirem tem um pouco de autonomia emocional. Ele transformou o conhecimento e conceito da psicologia e psiquiatria acessíveis. e concordo com ele, numa analise realista das coisas a variaçao do elementos da soma com suas características ( duas laranjas nunca terão o mesma medida e forma, quem cozinha sabe como a receita “dizanda” se se um ovo e meior que outro.sugiro que saia da redoma das teorias de laboratório e viva a realidade das pessoas comuns.