Bule Voador

Bertrand Russell e a morte

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A seguir, citações traduzidas de Russell sobre a morte, em ordem cronológica.  

  

“Acredito que quando morrer apodrecerei e nada do meu ego sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenharia estremecer de pavor diante do pensamento da aniquilação. A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim; tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos. Muitos homens preservam o orgulho ante o cadafalso; decerto o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o lugar do homem no mundo. Ainda que as janelas abertas da ciência a princípio nos façam tiritar, depois do tépido e confortável ambiente familiar de nossos mitos humanizadores tradicionais, ao fim o ar puro nos confere vitalidade, e ademais os grandes espaços têm seu próprio esplendor.”
(What I Believe [No que acredito] – 1925.)  

   

“Toda infelicidade depende de algum tipo de desintegração ou falta de integração; há desintegração interna do eu através da falta de coordenação entre a mente consciente e a mente inconsciente; há falta de integração entre o eu e a sociedade quando ambos não se unem pela força de interesses objetivos e afeições em comum. O homem feliz é aquele que não sofre de qualquer uma dessas falhas de unicidade, cuja personalidade não é nem dividida contra si mesma nem atirada contra o mundo. Tal homem sente-se um cidadão do universo, desfrutando livremente o espetáculo que o universo oferece e as alegrias que proporciona, imperturbável pelo pensamento da morte porque não se sente realmente separado daqueles que virão depois de si. É nesta profunda união instintiva com a fluxo da vida que a maior felicidade é encontrada.”
(The Conquest of Happiness [A Conquista da Felicidade] – 1930.)  

    

“Algumas pessoas idosas se afligem com o medo da morte. Nos jovens há uma justificativa para este sentimento. Rapazes que têm motivos para temer que serão mortos em batalha podem justificavelmente padecer no pensamento de que foram privados das melhores coisas que a vida pode oferecer.  

Mas num homem idoso que conheceu as alegrias e mágoas humanas, e que atingiu alguma obra que estivesse propenso a realizar, o medo da morte é algo abjeto e ignóbil. A melhor maneira de superá-lo – ao menos assim me parece ser – é tornar seus interesses gradualmente cada vez mais amplos e mais impessoais, até que pouco a pouco os muros do ego se afastem, e sua vida se torne crescentemente fundida à vida universal.  

A existência de um indivíduo deve ser como um rio – pequeno no começo, estreitamente contido em suas margens, e correndo apaixonadamente através de pedregulhos e quedas. Gradualmente o rio se alarga, as margens se afastam, as águas correm mais calmas, e no fim, sem uma quebra visível, as águas misturam-se com o mar; e sem dor perdem sua individualidade. O homem que, na idade avançada, pode ver sua vida dessa forma, não sofrerá com o medo da morte, pois o que é importante para ele continuará.  

E se, enquanto a vitalidade decai, o cansaço cresce, a ideia de descansar será bem-vinda. Devo desejar morrer enquanto ainda trabalho, sabendo que outros continuarão o que não mais posso fazer, e satisfeito com o pensamento de que o que era possível foi feito.”
(How to Grow Old [Como Envelhecer], em Portraits From Memory And Other Essays [Retratos da Memória e Outros Ensaios] – 1956.)  

    

“Não são argumentos racionais, mas emoções, que causam a crença numa vida futura [após a morte]. A mais importante dessas emoções é o medo da morte, que é instintivo e biologicamente útil. Se nós acreditássemos genuina e sinceramente na vida futura, deveríamos parar completamente de ter medo da morte. Os efeitos seriam curiosos, e provavelmente seriam tais que a maioria de nós deploraria. Mas nossos ancestrais humanos e sub-humanos lutaram e exterminaram seus inimigos através de muitas eras geológicas e foram beneficiados pela coragem; é portanto uma vantagem para os vencedores da luta pela existência a capacidade de ocasionalmente superar o medo natural da morte. Entre animais e selvagens, a belicosidade instintiva é suficiente para este propósito; mas num certo estágio de desenvolvimento, como os maometanos provaram pela primeira vez, a crença no Paraíso tem valor militar considerável para reforçar a belicosidade natural. Devemos, portanto, admitir que os militaristas são sábios ao encorajar a crença na imortalidade, sempre supondo que esta crença não se torne tão profunda ao ponto de produzir indiferença para com as questões mundanas.”
(Do We Survive Death? [Sobrevivemos à Morte?] em Why I Am Not a Christian [Por que não sou cristão] –  1957.)  

    

“Desejo que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas sejam espalhadas e desejo que não haja qualquer cerimônia fúnebre.”
(Testamento datado de 18 de novembro de 1966.)
  

“Contaram-me que os chineses disseram que me enterrariam próximo ao Lago Ocidental e construiriam um templo em memória a mim. Tenho um leve arrependimento de que isto não tenha acontecido, pois eu poderia ter me tornado um deus, o que teria sido muito chique para um ateu.”
(The Autobiography of Bertrand Russell [A Autobiografia de Bertrand Russell] – 1968.)  

  

“É duro ter que deixar este belo mundo.”
(Janeiro de 1970, poucas semanas antes de morrer.)  

Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org
  • Guest

    Trechos ótimos. Principalmente para serem lidos no momento em que vivemos, no qual, a sociedade segue contutas distanásticas. Prevalecendo pensamentos como o de que viver é sempre melhor do que morrer e promessas de imortalidade por parte da medicina.

  • Adriano Seikiti.

    Trechos ótimos. Principalmente para serem lidos no momento em que
    vivemos, no qual, a sociedade segue condutas distanásticas. Prevalecendo
    pensamentos como o de que viver é sempre melhor do que morrer e
    promessas de imortalidade por parte da medicina.