Bule Voador

Sobre picles e o Sudário de Turim (ou “Como cozinharam o Santo Sudário”)

 

A face do Sudário de Turim com uma 'reconstituição'

A face do Sudário de Turim com uma 'reconstituição'

Há mais ou menos um ano uma amiga minha disse que um colega de trabalho dela, ao ouvir que sou ateu, queria ter uma conversinha franca comigo a respeito disso. Ela disse que ele era católico. Eu disse “ok” e esqueci o assunto até o tal sujeito me achar na saída de uma festa junto com ela.

É bom ter de vez em quando um debate desse tipo com alguém que queira debater, então fui escutar o que o sujeito tinha a dizer. Um ateu que não saiba argumentar para mim é pior que um crente que só sabe pregar.

E ele não era um crente que só sabe pregar, tentou me fazer ver que o catolicismo dele era a resposta mais racional para os dilemas do mundo. Jurava que é um milagre que alguns cadáveres de papas e ‘santos’ supostamente não se decomponham nas criptas do Vaticano. E, acima de tudo, tinha como melhor ‘evidência’ o tal do ‘santo’ sudário de Turim.

Bem, o que dizer sobre os tais picles humanos que alguns católicos adoram como baluartes divinos? Incluam aqui um tal sangue santo numa catedral europeia que supostamente está há séculos sem coagular guardado num frasquinho chique (haja saliva de sanguessugas…). Os católicos até cunharam um nome para esse formol divino: “incorruptibilidade”.

Imaginem: eles acreditam que o universo foi criado e é governado por um fantasmão amorfo, perfeitamente inteligente, que está mais preocupado em torturar judeus em cruzes e manter defuntos intactos do que em se revelar de formas claras e distintas à Humanidade. De fato, os caminhos de ‘Deus’ são inefáveis, e ele escreve por linhas tortas: ou seja, esse deus não respeita a lei seca e dirige o universo completamente embriagado.

Então, eu disse ao nobre interlocutor que não poderia levar em conta esses tais picles humanos intactos, já que a igreja dele não permite que ninguém imparcial os examine – nem mesmo um funcionário da McDonald’s. E outra, se alguém pensa que um deus perfeito e sabichão estaria preocupado em ser papa-defunto, deve estar com um câncer avançado no órgão da lógica.

E o Sudário? Pois é, com o Sudário o senhor estraga-festa insistiu mais. Denovo o bendito Sudário de Turim, já mostrado como fraudulento, mas ao qual alguns católicos se agarram como uma criança se agarra a um ursinho de pelúcia e dizem que tem um problema na datação do carbono 14 e lá vem nenhenhém. (Qual é a dos cristãos com o carbono 14 afinal? É carbono 14, pessoal, não carbono 666.)

À época eu me limitei a dizer o que já é dito há muito tempo: o sudário de Turim é provavelmente uma fraude da idade média e não pode ter dois mil anos de idade nem aqui nem naquela terra tórrida e desinteressante que gostam de chamar de santa.

Esta semana os cientistas me deram mais munição na revista científica PLoS One. Arqueólogos acharam um sudário que realmente tem datação compatível com a da época de Jesus (é outro sudário), dessa vez numa tumba-caverna. O corpo enrolado por este sudário, que não teve a sorte de virar condimento pelas mãos divinas, tem evidências de ter sido uma vítima da lepra e tuberculose.

 

O novo sudário achado pelos arqueólogos confirma que o sudário de Turim é uma fraude

O novo sudário achado pelos arqueólogos confirma que o sudário de Turim é uma fraude (Shimon Gibson/National Geographic)

O que chama atenção no achado arqueológico é que, primeiro, de mais de mil tumbas da época, esta é a única conhecida em que há um sudário (o que sugere que não era uma prática comum na época). Além disso, o que é mais importante, o tipo de tecido do sudário da tumba é completamente diferente do tipo de tecido do dito “santo” sudário de Turim (tido como santo desde o século XVI, quando chegou à catedral de Turim na Itália). O tipo de entrelaçamento do “santo” sudário só chegou à região na época da… adivinhem… Idade Média (sim, aquela época em que além de preparar picles humanos a Igreja Católica fazia churrasquinho de bruxa e cientista).

Os arqueólogos concluem que o sudário tido como santo pelo Vaticano não pode ter sido feito na região de Jerusalém (vai ver Pilatos, depois de lavar as mãos, comprou um sudário com tecnologia de ponta pela internet, direto de Roma).

O que a autointitulada ‘infalível’ e incorruptível igreja vai dizer a respeito? Vai dizer “ai não!, trocaram nossa mercadoria, na verdade o santo sudário é esse achado agora, que realmente tem 2000 anos…”? Se for assim, então Jesus morreu tísico e leproso. Pelo visto, Aleijadinho teria conseguido mais realismo com Jesus se tivesse esculpido um autorretrato em pedra-sabão.

Os caminhos da História são inefáveis, e é interessante notar como a derrocada epistêmica de certos sistemas de crença é escrita numa linha reta, em letras garrafais, pintado com marca-texto e ainda piscando com neon, e ainda assim os fiéis se fingem de analfabetos para não ler essa linhazinha impertinente.

Na próxima vez que um católico me parar numa festa para falar de religião, vou dizer, em meio a uma tosse falsa: “Bacilo de Koch! Bacilo de Hansen!”

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Eli Vieira
Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org