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Entrevista – Maryam Namazie, uma atéia de coragem

Maryam Namazie photo by Reza Moradi

Nascida em Teerã, de onde saiu com a família em 1980 por causa da implantação do regime dos aiatolás, Maryam Namazie morou na Índia, no Reino Unido e depois nos Estados Unidos, onde começou seus estudos universitários com 17 anos.

Depois da graduação, Maryam começa a mostrar a que veio: foi lutar pelos direitos de refugiados etíopes no Sudão. Pela segunda vez em sua vida o movimento político muçulmano a interrompe: o recém-implantado regime islâmico do Sudão a deporta do país por ter implantado uma organização clandestina pelos direitos humanos.

Desde então, o ativismo de Maryam Namazie pelos direitos humanos e pelo secularismo não encontrou mais descanso. Como Diretora Executiva da Federação Internacional de Refugiados Iranianos, conseguiu evitar que a Holanda deportasse 1000 desses refugiados, discursando em plenário do poder legislativo local.

A vencedora do prêmio Irwin de secularista do ano de 2005 agora produz e apresenta um programa de TV e é a porta-voz de organizações como o Conselho de Ex-Muçulmanos da Grã-Bretanha, onde reside atualmente, e da campanha One Law For All, que visa banir a lei da Sharia na Inglaterra.

Hoje Maryam Namazie gentilmente concedeu uma entrevista à Liga Humanista Secular do Brasil. Leia abaixo.

LiHS – Você é uma ativista bastante ocupada, atuando em causas nobres como igualdade de direitos para mulheres de países islâmicos, ‘uma lei para todos’ (contra a lei da Sharia) no Reino Unido, e apoio para aqueles ex-muçulmanos que poderiam talvez ter sido executados pelo ‘crime’ da apostasia. De onde vem toda essa energia? Você sempre foi tão engajada assim?

Maryam Namazie em manifestação pela liberdade de expressão Namazie – Estou na atividade já há mais de vinte anos – a maior parte dessa atividade é o resultado de eu ter passado por uma revolução e ter testemunhado sua supressão e expropriação por parte do movimento político islâmico no Irã. Todas as grandes revoluções – como a francesa, a russa e a iraniana – mudam o mundo em que vivemos e afetam gerações, mesmo quando são esmagadas como aconteceu no caso do Irã (embora ainda vejamos bem vivo o movimento revolucionário no Irã hoje).

E eu penso que enquanto todos nós ouvimos ou passamos por coisas que nos deixam indignados ao ponto de agir, ajuda muito sermos parte de movimentos sociais e partidos políticos como eu sou. Para mim, o momento decisivo veio em 1994, quando eu estava sentada em um campo de refugiados iranianos na Turquia, e ouvi sobre o marxista recente e trabalhista-comunista Mansoor Hekmat (http://hekmat.public-archive.net/indexEn.html), que tornou-se meu herói desde então – e o herói de uma geração inteira no Irã. Sinto-me mais forte por causa disso.

 

LiHS – Você testemunhou o surgimento de dois Estados islâmicos – o Irã e o Sudão. Eles são uma ameaça para o futuro da humanidade? Poderia haver um Estado islâmico no qual os direitos humanos fossem respeitados?

Namazie – Os Estados islâmicos são uma ameaça para a humanidade mas não são a única – o militarismo guiado pelos Estados Unidos é outra. Eu penso que as duas se alimentam uma da outra e precisam da outra para sua legitimização da mesma forma que acontece com Israel e o Hamas ou a União Soviética e os Estados Unidos durante a Guerra Fria. Mas, como em toda ameaça, depende muito da resistência que encontra. Ameaças piores já foram afastadas pela classe trabalhadora e pelos movimentos progressistas, e esta ameaça será afastada também.

Na minha opinião, um Estado islâmico que respeite os direitos humanos é impossível; na verdade os dois são mutuamente excludentes. E é a mesma coisa para qualquer Estado religioso onde dogmas e regras religiosas prevalecem sobre direitos e liberdades e seres humanos que vivem e são reais. Na verdade, a religião está em sua melhor forma quando restringe e reprime. Leis e Estados religiosos pertencem a uma era do medievalismo e da brutalidade. O Esclarecimento [Iluminismo] conseguiu distanciar o papel da Igreja na vida pública em larga medida – o mesmo é necessário com o Islã no poder político.

 

LiHS – Desde as insurreições e manifestações contra os supostos resultados da última eleição presidencial do Irã, a questão quase desapareceu da grande mídia no mundo ocidental, ou ao menos no Brasil. Um amigo meu quase foi preso no Irã. Alguma das organizações que você representa, particularmente a Equal Rights Now, tem acesso a informações sobre o que está acontecendo por lá? É grande o apoio à democracia e ao secularismo no Irã?

Maryam - photo by One Law For All Campaign Namazie – As notícias sobre a situação do Irã podem ter desaparecido, mas os protestos continuam; as pessoas usam qualquer desculpa para sair e mostrar oposição. A eleição fraudulenta foi um desses casos, como todos sabem as eleições no Irã não foram eleições por critério algum. Penso que os protestos não são apenas insurreições mas reflexões de uma revolução que tem se desdobrado no Ir㠖 uma revolução que pode anunciar um novo dia para o país e para o mundo.

Muitas das organizações com as quais estou envolvida têm amplos contatos dentro do Ir㠖 incluindo a New Channel TV – que é constantemente obstruída pelo regime islâmico iraniano por causa de sua importância – e o Partido Trabalhista-Comunista do Irã. Na verdade a New Channel TV tem milhões de telespectadores e recebe centenas de ligações por dia do Irã. A mensagem que sai do Irã é muito clara: os dias do regime islâmico estão contados e as pessoas querem nada menos que trazer o Irã para o século XXI.

 

LiHS – O que você faz em seu cotidiano para viver uma vida feliz e interessante, além de seus esforços incansáveis para promover os direitos humanos e o secularismo no mundo?

Namazie – Tenho um filho de quatro anos, que é a melhor coisa que já me aconteceu. Se eu soubesse antes como é maravilhoso ter filhos eu teria gerado muitos mais, mas infelizmente é um pouco tarde para eu ter uma família grande porque estou com 43 anos agora. E também tenho um parceiro maravilhoso e uma família e amigos amorosos, que são tão importantes. Muito do meu tempo pessoal é para ficar com minha família, mas quando posso adoro assistir a filmes (infelizmente eu adoro qualquer comédia romântica, até as mais bregas) ou clipes de música, dançar, e eu posso sentar num bar todos os dias e ficar o dia inteiro olhando as pessoas passarem sem me cansar.

 

LiHS – Qual é o papel da ciência na sua visão de mundo? Tem a ver com suas opiniões sobre o Islamismo e o Cristianismo? Qual é, na sua opinião, o mal comum entre o Islã, o Cristianismo e as outras religiões?

Namazie – A ciência representa a livre investigação, o progresso, e o avanço humano, enquanto a religião representa o dogma, o medievalismo e o retrocesso. Para mim todas as religiões são iguais – o Islã só importa mais agora porque está ligado a um movimento político.

 

LiHS – Você acha que ateus, agnósticos, livres-pensadores e céticos da América Latina como nós podemos ajudá-la em alguma de suas causas? Como?

Maryam Namazie - by www.inminds.co.uk Namazie – É claro que sim – onde estaríamos sem o apoio da humanidade civilizada de todos os cantos? Há muitas formas de ajudar também – e cada ato de apoio não importa o quão pequeno seja é crucial para nós e é apreciado. Pode ser qualquer coisa, de assinaturas em nossas campanhas, doações para nossa causa, voluntariado incluindo traduções de nossos materiais, a publicar nosso trabalho na mídia latino-americana e entre pessoas e organizações locais, e assim por diante. No dia 21 de novembro vamos organizar uma parada contra a Sharia e contra leis religiosas na Grã-Bretanha, em apoio do secularismo e da igualdade de direitos. Estamos pedindo às pessoas para se manifestarem conosco em centros urbanos ao redor do globo para apoiar nossa ação. Não precisa ser coisa grande – pode ser até mesmo algumas poucas pessoas segurando uma faixa ou uma placa dizendo não à Sharia e às leis religiosas. Publicaremos as fotos das várias ações em nosso site. Talvez alguns de seus leitores possam fazer alguma coisa assim para a nossa manifestação de 21 de novembro?

 

LiHS – Viria ao Brasil para uma possível reunião de livres-pensadores e ativistas dos direitos humanos no futuro? Prometemos que não deixaríamos os católicos te batizarem.

Namazie – Ah, se é assim, eu adoraria. Eu vou para qualquer lugar se for convidada para compartilhar informações, conhecer amigos e também confrontar oponentes – e que lugar seria melhor que o Brasil? Não estou muito preocupada em ser batizada – afinal não significa nada para mim – e qualquer coisa a National Secular Society tem um certificado de desbatismo se eu precisar!

 

LiHS – Tem algum conselho para a LiHS como uma organização humanista secular que está começando agora no Brasil?

Namazie – Desejo todo sucesso do mundo para vocês – acho que é imensamente importante para todos nós ter uma organização como a sua no Brasil. Mesmo organizações recém-formadas e pequenas podem fazer um mundo de diferença, então continuem. Vocês têm todo nosso apoio, por favor não deixem de nos chamar se houver qualquer coisa que possamos fazer para ajudá-los.

 

LiHS – Maryam Namazie, foi um grande prazer falar contigo. Você é com certeza uma das mulheres mais admiráveis do mundo, e esperamos ter notícias suas muitas vezes mais no futuro.

Namazie – É muita gentileza sua. Foi um prazer, e sei que trabalharemos juntos muitas vezes nos próximos anos.

"Direitos, igualdade e respeito são para pessoas, não para religiões ou crenças. O Humanismo para mim é acreditar que nada além do ser humano é sagrado." Maryam Namazie, campanha da Associação Humanista Britânica

This interview is available in English here.

Biólogo pela UnB, mestre em genética pela UFRGS, doutorando em genética pela University of Cambridge (Reino Unido). Membro fundador e ex-presidente da Liga Humanista Secular do Brasil. Escreve também em EliVieira.com e Evolucionismo.org