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Astrologia: estudos experimentais

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O Blog: Projeto Ockham

A Fera: Ana Luiza Barbosa de Oliveira (*) 

 

ZodíacoA característica fundamental da Ciência é a observação da natureza e a experimentação. Em outras palavras, ao observar um fenômeno o cientista cria uma teoria para explicá-lo, faz previsões a partir da sua teoria e realiza experimentos para verificar se as previsões estão corretas.

Se a astrologia aspira a ser uma Ciência, deve ser julgada pelos princípios científicos. Primeiro de todos: o ônus da prova cabe a quem faz as alegações. Ou seja, cabe aos astrólogos provar que a astrologia funciona. No entanto, os efeitos das posições dos planetas e da Lua em qualquer pessoa na Terra nunca foram demonstrados em qualquer estudo sistemático revisado. Seguem exemplos de alguns estudos:

O psicólogo Bernard Silverman, da Michigan State University, estudou o casamento de 2978 casais e o divórcio de 478 casais, comparando com as previsões de compatibilidade ou incompatibilidade dos horóscopos e não encontrou qualquer correlação. Pessoas “incompatíveis” casam-se e divorciam-se com a mesma freqüência que as “compatíveis” (Silverman, B.I. Studies of Astrology. The Journal of Psychology. 1971, 77, 141-149). O psicólogo suíço Carl Jung (1875-1961), em seu livro “A Interpretação da Natureza e da Psique”, chegou à mesma conclusão.

 

Os astrólogos não foram melhor do que qualquer pessoa que estivesse “chutando”

O físico John McGervey, da Case Western University, estudou as biografias e datas de nascimento de 6000 políticos e 17000 cientistas e não encontrou qualquer correlação entre a data de nascimento e a profissão, prevista pela astrologia (Innumeracy, Paulos J.A.).

Um teste duplo-cego da astrologia foi proposto e executado pelo físico Shawn Carlson, do Lawrence Berkeley Laboratory, Universidade da Califórnia. Grupos de voluntários forneceram informações para que uma organização astrológica bem estabelecida produzisse um horóscopo completo da pessoa, que também preenchia um questionário de personalidade completo, preestabelecido de comum acordo com os astrólogos.

A organização astrológica que calculava o horóscopo completo da pessoa, juntamente com 28 astrólogos profissionais que tinham aprovado o procedimento antecipadamente, selecionavam entre 3 questionários de personalidade aquele que correspondia a um horóscopo calculado. Como haviam 3 questionários e um horóscopo, a chance de acerto aleatório era de 1/3 = 33%. Os astrólogos tinham previsto antecipadamente que a taxa de acerto deveria ser maior do que 50%, mas em 116 testes, a taxa de acerto foi de 34%, ou seja, a esperada para escolha ao acaso. Em outras palavras, os astrólogos não foram melhor do que qualquer pessoa que estivesse “chutando”. Os resultados foram publicados no artigo A Double Blind Test of Astrology, S. Carlson, 1985, Nature, Vol. 318, p. 419.

 

A astrologia é um grande e vacilante monumento à ingenuidade humana

Os astrônomos Roger Culver e Philip Ianna, que publicaram o livro Astrology: True or False, (1988, Prometheus Books), registraram as previsões publicadas de astrólogos bem conhecidos e organizações astrológicas por 5 anos. Das mais de 3000 previsões específicas, envolvendo muitos políticos, atores e outras pessoas famosas, somente 10% se concretizaram. Esta taxa de acerto é menor do que a de opiniões de especialistas no assunto.

Ainda assim, todos estes estudos são apenas exemplos isolados. Em 1988, foi publicado um artigo histórico na revista Experientia. Nele, o autor realizou uma extensa revisão dos artigos publicados sobre a astrologia e concluiu que “a astrologia é um grande e vacilante monumento à ingenuidade humana”. (Experientia, Volume 44 (4), 15 Abr, 1988, Páginas 290-297).

 

O Famoso Efeito Marte

Um estudo muito conhecido e comentado foi realizado por Michel Gauqelin, cuja educação formal é na área de estatística. Analisando a posição de Marte no momento do nascimento de grandes atletas ele obteve uma correlação acima da esperada para uma distribuição ao acaso, que ficou conhecida como Efeito Marte.

Muitos céticos fizeram críticas ao experimento afirmando que houve manipulação de dados e erros de tratamento, o que não era verdade. Simplesmente ocorreu que o universo de atletas analisados por Gauqelin naquele estudo era, não intencionalmente, tendencioso.

Aqui existem três itens a serem analisados. Primeiro, no que diz respeito ao estudo de Gauqelin: um estudo isolado não prova nada até que as afirmações nele contidas sejam testadas por pesquisadores independentes e confirmadas. Até o presente momento não existem provas científicas de que a astrologia seja uma Ciência, mas se mecanismos e teorias forem propostos e exaustivamente testados com resultados independentes positivos, toda a comunidade científica aceitará a Astrologia como Ciência.

 

Qualquer tipo de fé cega leva a atitudes não inteligentes

Segundo, correlação entre dois fatos não significa que existe uma relação entre eles. Não basta apenas uma correlação estatística, é necessário também que exista uma explicação de como um fenômeno está relacionado ao outro.

Terceiro, qualquer tipo de fé cega leva a atitudes não inteligentes. Muitas das críticas ao artigo de Gauqelin foram infundadas e baseadas em opiniões pessoais. Isto também não é ciência, é fundamentalismo.

De qualquer modo, o que Gauqelin afirma sobre Marte e os atletas não é verdade, de acordo com um estudo feito por cientistas franceses. Em uma amostra de 1066 atletas franceses comparada com 85280 outros nascimentos quanto a horas, datas de nascimento e localização de Marte no momento, não foi detectado o “Efeito Marte.”

Esta diferença de resultados pode ser explicada por um fenômeno social simples. As datas de nascimento dos atletas analisados neste último estudo eram mais recentes, ao passo que a maioria das datas de nascimento analisadas por Gauqelin eram do fim do século XIX e início do século passado na Europa ocidental. Nesta época, a astrologia estava em baixa e os poucos resquícios se resumiam a almanaques que publicavam dados sobre o nascer e pôr dos planetas, os quais estavam associados a profissões.

 

Existe uma componente social por trás do efeito Marte

Então seria bastante possível que as pessoas, principalmente de famílias eminentes, modificassem as datas e horas dos nascimentos para parecer, diante da sociedade, que seus descendentes sofriam a influência correta dos astros. Afinal, um grande comandante militar, por exemplo, gostaria que seu filho fosse nascido sobre a influência de Plutão e seguisse a carreira militar, continuando, assim, a tradição da família.

Geofrey Dean analisou novamente os dados de Gauqelin e encontrou informções que mostram que as horas e dias de nascimentos podem ter sido manipulados pelos pais. Por exemplo, havia poucos nascimentos em dias considerados de mau agouro pelos almanaques, como nos dias 13, dias de lua nova, etc. Além disso, certas horas também mal-agouradas, como meia-noite, são evitadas. Em outras palavras, existe uma componente social por trás do efeito Marte: as pessoas do fim do século XIX e início do XX tinham informação, motivo e oportunidade para inadvertidamente criar um aparente efeito planetário como o efeito Marte. (Skeptical Inquirer, 26(3)).

Michel Gauqelin, mesmo acreditando na astrologia, durante toda a vida se comportou como um verdadeiro cientista, realizando vários experimentos e estudos sobre a astrologia e publicando todos os resultados, mesmo aqueles que iam contra suas crenças pessoais. Ele é uma fonte imensa de artigos que são usados tanto pelos astrocrentes como pelos descrentes.

Graças aos trabalhos de Gauqelin, muitos astrólogos vêm se graduando em cursos relacionados às áreas de estatística e psicologia com o intuito de produzir trabalhos de qualidade que sejam aceitos pela comunidade científica. Infelizmente nenhum deles parece estar preocupado em propor um mecanismo que explique as estastísticas que eles produzem. Correlações estatísticas, conforme comentado, não são suficientes para provar a relação entre dois fenômenos.

 

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(*) Ana Luiza Barbosa de Oliveira é formada em engenharia química pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha como Perita Criminal da Polícia Federal.

 

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