Bule Voador

Nota sobre ateísmo no site da Universidade Mackenzie: uma resposta

Autor: Eli Vieira

 

darwinismo-socialA Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) é conhecida por ter organizado dois simpósios, nos anos de 2008 e 2009, sobre o “Darwinismo Hoje”.

A maioria dos palestrantes foram criacionistas, chegaram a fazer mesa redonda em que havia um só evolucionista (ou “darwinista”, como os criacionistas insistem em chamar, erroneamente), e a absoluta maioria dos palestrantes não tinha formação em biologia.

Organizar um evento sobre evolução para apenas engenheiros e outros falarem é como organizar um evento sobre Machado de Assis e convidar só especialistas na literatura de Bruna Surfistinha.

Inclusive John Lennox, que foi a estrela maior do simpósio “Darwinismo hoje” de 2009, é um matemático, com argumentos batidos que até o mais comum dos criacionistas emitiria – o que inclui a chamada falácia de Hoyle.

Parece que o estoque de biólogos criacionistas com renome está bastante minguado.

Sendo o criacionismo em todas as suas formas (o que inclui a pseudoteoria do Design Inteligente) apenas um cavalo-de-Troia religioso tentando entrar na cidadela da ciência, fica claro que existe um viés dos administradores dessa universidade a favor da religião e, neste caso, contra uma teoria científica que é uma das mais confirmadas de toda a história.

O curioso é que a Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos diz em seu site oficial que “a Bíblia não é um livro de ciência”. E mais:

Concluímos que a verdadeira relação entre a teoria evolutiva e a Bíblia é aquela da não-contradição e que a posição defendida pelas Assembleias Gerais de 1886, 1888, 1889 e 1924 estava errada e não mais representa a mente de nossa Igreja.

A Universidade Mackenzie, ao dar tanto espaço a criacionistas como o engenheiro Rui Vieira (presidente da SCB), pelo visto está indo na contramão de seu próprio nome do meio: presbiteriana, e adotando uma posição que os presbiterianos americanos abandonaram 85 anos atrás.

E isso não é tudo. No ano passado escolas de educação básica do grupo Mackenzie chegaram às manchetes por infectar as aulas de ciências com criacionismo. O episódio culminou com uma nota pública do Ministério da Educação contra este tipo de deturpação do ensino de ciências.

Parece que alguns presbiterianos brasileiros estão se esforçando para contradizer a Igreja Presbiteriana dos EUA durante toda a formação de seus filhos, da educação básica ao ensino superior.

Essas escolas e a UPM são confessionais, então isso é apenas um exercício do direito delas, apesar de ir contra os parâmetros curriculares do MEC.

Nossa Constituição garante que os presbiterianos exerçam sua fé com liberdade, e nós ateus prontamente reconhecemos este direito. Da mesma forma, se houver estudantes ateus em instituições do grupo Mackenzie, eles serão respeitados também, certo?

Errado. Ao menos segundo o chanceler Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes, um dos principais organizadores dos dois simpósios sobre “darwinismo” (e eu não canso de me perguntar por que não usaram nomes menos obsoletos como “evolucionismo” e “teoria da evolução”, mas continuemos…).

Augustus tem doutorado em teologia, a disciplina que segundo o cientista Daniel Everett (que tem graduação em teologia) é “uma perda de tempo“.

A razão de minha suspeita de que o chanceler não respeita seus estudantes ateus, é uma nota que ele publicou no site oficial da chancelaria da UPM.

A nota começa com uma simpática citação do Salmo 14, e em seguida afirma que a descrença é tão antiga quanto a humanidade. Eu não consigo imaginar como poderia ser assim, se no livro considerado a pedra fundamental do grupo Mackenzie, a Bíblia, estão narradas tantas manifestações pirotécnicas da presença divina: com mares se abrindo; ursas atacando moleques que se punham a xingar profetas de careca; pessoas subindo aos céus como balões de hélio, algumas com carruagens de fogo, outras sem; brutamontes assassinando povos infiéis com o auxílio de nada mais que mandíbulas de javali; e messias dizendo que vêm para trazer a espada e que haverá choro e ranger de dentes. Podem conferir tudo na Bíblia.

Como poderia haver descrentes desde a aurora da humanidade, com todas essas manifestações claras e distintas da presença divina? Talvez agora, com o silêncio absoluto desse deus, possamos ter motivos para descrer, mas quando a humanidade estava em seu começo (quanto tempo, 6 mil anos, chanceler?), não, não tínhamos motivo algum para sermos tão insensatos!
Depois dessa brilhante introdução, o Dr. Augustus diz que o IBGE contabiliza os ateus brasileiros em menos de 7% da população. O que não é exatamente o caso, dado que o IBGE se recusa a incluir ateísmo entre as opções de definição religiosa do censo.

Mas, considerando que seja verdade, imagino que o Dr. Augustus tenha alguma noção estatística de que, se menos de 7% dos brasileiros são ateus, ao menos alguma fração dos alunos da Universidade Mackenzie é também de ateus. E aí está o chanceler da universidade, a acusar insensatez em parte considerável de seus pupilos. Deve um chanceler incentivar tal hostilidade e desrespeito?

Talvez Augustus acredite que não existem ateus na UPM assim como Mahmoud Ahmadinejad, o presidente do Estado teocrático do Irã, acredita que lá não existem homossexuais.

Em seguida, Augustus cita o livro “Deus, um delírio” de Richard Dawkins, e especula:

Penso que a popularidade da obra se deve mais à curiosidade das pessoas em ver os argumentos dos ateus contra a existência de Deus do que propriamente de encontrar ali a solução para dilemas existenciais.

Eu imagino que a Filosofia conste entre as disciplinas oferecidas pela universidade do chanceler. Se ele se prestar ao trabalho mínimo de um dia humildemente se sentar entre os alunos dessa disciplina, aprenderá a separação clara que vários pensadores traçam entre epistemologia e ética (nos termos de Kant, questões de fato e questões de direito). E que, se um livro quer questionar epistemologicamente a existência dos deuses, não tem a mínima obrigação de dizer como as pessoas devem agir (ou resolver seus dilemas existenciais). Para isso, temos coisas como as leis, a empatia, o amor entre as pessoas, que pelo que me consta, não têm evidência alguma de terem sido plantados na humanidade por mãos invisíveis, muito menos as mãos invisíveis de um deus particular nascido na idade do bronze, em detrimento dos milhares de outros deuses já propostos pelas mais diversas culturas.

Em seguida, Augustus diz que os argumentos desse livro são “velhos e desgastados”. Por que seriam desgastados não fica claro, dado que ele não parece preocupado em descer de seu tom acusatório para refutá-los, o que seria mais intelectualmente honesto. E se a linguagem do livro é, segundo o chanceler, “ofensiva e ácida”, que ele saiba que tem todo o direito de se sentir ofendido, mas que ultraje tampouco é refutação.

Depois, o chanceler, infelizmente, emite mentiras descadaras: afirma que Dawkins diz no livro que a ciência refutou Deus, que a religião é má e que a religião tem origem num “vírus da mente”. Quando na verdade, o que Dawkins disse, junto com filósofos como Daniel Dennett e Sam Harris, é que a ciência moderna torna inférteis e improváveis as hipóteses divinas. Não é preciso muita refinação intelectual para compreender a diferença entre a caricatura feita por Augustus e o que de fato está no livro.

Sobre “vírus da mente”, essa metáfora de fato é empregada, mas em alusão a todo um novo campo de pesquisa, que é a evolução cultural. Ou o Dr. Augustus espera que a cultura seja criada especialmente por Deus junto com os animais e as plantas? “Vírus da mente” também se refere à compreensão crescente que temos dos mecanismos neurofisiológicos de aquisição de crenças sem referência alguma no mundo sensível, como os deuses. Harris, Sheth e Cohen são alguns pesquisadores pioneiros nesse campo. O que mostram é que, grosso modo, acreditar em deuses não é fisiologicamente diferente de acreditar no Curupira ou no Saci.

Portanto, dizer que os argumentos do livro de Dawkins não têm “embasamento na realidade” não passa de um delírio do Chanceler Augustus. O chanceler, por fim, comete uma falácia (argumentum ad verecundiam) ao alegar que cientistas “do mesmo calibre de Dawkins” acreditam em Deus. Isso não é uma inverdade, dado que temos Francis Collins. Entretanto, as premissas de Collins em favor de “Deus” não têm nada a ver com ciência, ou seja, não têm referência alguma em evidências. Apenas homilias morais, arrebatamentos ético-estéticos, como de praxe.

Mas mesmo no campo das falácias Dr. Augustus não se dá bem, pois a esmagadora maioria dos cientistas não acredita em um deus pessoal.
Quanto à afirmação do Dr. Augustus, de que “regimes ateístas” mataram mais que qualquer cruzada, carece de fontes. Se se refere aos regimes comunistas, sabemos muito bem o que o culto à personalidade e o dogmatismo dos comunistas, análogos perfeitos das religiões, podem fazer.

Encerrando, o Chanceler Dr. Augustus Nicodemus Gomes Lopes diz vagamente que há quem responda aos argumentos de Dawkins (que é tarefa da qual o chanceler quis se eximir), e entre essas pessoas está Alister McGrath. Tanto pior, pois Alister McGrath tem escrito livros falaciosos que simplesmente fogem da questão contida no livro de Dawkins: se é preciso um deus para explicar a origem da complexidade, de onde vem a complexidade do próprio deus? Por isso, deuses nunca explicaram nada. Não passam de péssimas hipóteses, por mais consoladoras que sejam.

Mentes, como diz Dawkins, vêm tarde no processo histórico do universo.  E, como diz Jerry Coyne, não são consequências inevitáveis dos processos naturais que fazem com que surjam. Postular uma mente gigantesca, onisciente, onipotente, onipresente, e ainda preocupada com o destino e as vidas de criaturas insignificantes em planetas insignificantes nos subúrbios das galáxias, não faz o menor sentido.

Creio que um chanceler tenha coisas mais nobres para se preocupar, em vez de lançar argumentações falaciosas e discriminatórias no sítio eletrônico de sua universidade.

E garanto que existem muitos ateus com solicitude para dialogar com teístas, mas se o grupo Mackenzie não quer respeitar nem as assembleias presbiterianas, enfiando dogma na aula de ciência, assim fica difícil.

 

 

 

Bule Voador
  • André Prado

    Tenho três perguntas pra você:

    Qual a porcentagem de gás hélio na atmosfera do planeta terra e o que isso tem a ver com a idade da Terra?

    Quantos centímetros a lua se afasta da terra por ano e o que isso tem a dizer sobre a idade da terra?

    O que você tem a dizer sobre um peixe chamado celacantus, sobre o kha-nyou, sobre a enguia da República do Palau e o Repenomamus robustus?

    Alías, tenho mais uma:

    O que seria uma lei da física estranha e desconhecida?